Saturday, November 25, 2006

Conciliador e cooperante ou inoperante, conivente?

Li na edição de segunda feira passada, no jornal gratuito metro, uma apreciação positiva à recente entrevista e, mais importante, à actuação institucional do presidente da república.

Dizia o cronista que esta atitude do presidente punha à frente dos interesses pessoais os interesses do país e que era algo que os portugueses agradeciam.

Lamento desapontá-lo, mas está enganado na sua generalização. Não se preocupe, é um problema comum nas generalizações a que hoje em dia tanto se gosta de recorrer no dito jornalismo. Basta que umas estatísticas, muitas vezes com uma amostragem ridícula, indiquem uma conclusão qualquer que logo se dispara para a generalização. Pois, eu não agradeço esta atitude a que chama de conciliadora e cooperante. Na minha opinião trata-se de uma atitude de inoperância e conivência com medidas danosas para os portugueses e para Portugal.

Em primeiro lugar, esta atitude é conivente pois pactua com a quebra de compromissos eleitorais e programáticos que o partido agora no governo fez aos portugueses. É uma atitude de tolerância de uma aldrabice, um logro, uma fraude é, nessa perspectiva, uma atitude cúmplice.

É inoperante ou hipócrita. Ainda há bem pouco tempo este presidente da república chamava a atenção para a necessidade do combate à exclusão social daqueles que, por um motivo ou outro, são mais desfavorecidos na sociedade. Ora este governo prepara-se para agravar a carga fiscal aos deficientes. Diga-me, caro cronista, em que medida é que tal atitude contribui para a inclusão social dos deficientes, se for capaz. Diga-me se defender a inclusão social em discursos e não actuar em sua defesa nas atitudes não poderá, mesmo na melhor das hipóteses ser considerado um hipocrisia e, na pior, inoperância ou incompetência.

Poderíamos até ser um pouco mais críticos e tentar lembrar quais as medidas que o actual presidente tomou enquanto primeiro ministro para combater a exclusão social. Será que, após tal análise, reconheceríamos a este homem estatura moral para exigir qualquer tipo de acção neste sentido tendo em conta o que teria feito enquanto detentor do poder?

Entretanto, um grupo de empresários criou um fundo para combater o insucesso escolar, como medida para o combate à exclusão social. É uma atitude louvável, acima de qualquer crítica, não há dúvida quanto a isso. O que é triste é que tenham que ser empresário privados a fazê-lo. O que é triste é que tenham o empresários que se substituir ao ministério da educação que, por sua vez, tudo faz para ajudar ao insucesso escolar e à insatisfação tanto de alunos como de professores. Talvez a grande vantagem desta atitude não seja combater a exclusão. Talvez o seu maior mérito seja fazer-nos perceber que o dinheiro dos nossos impostos serve cada vez para menos além de pagar os salários à classe política que é, cada vez mais, inútil.

Este presidente da república não é muito diferente dos anteriores. Durante o primeiro mandato optam por um perfil discreto e cooperante com o governo por forma a terem menos dificuldades em garantir a obtenção do segundo mandato pois os partidos que governam sob a sua alçada, quer sejam da mesma cor ou não, não lhe farão grande combate nas eleições seguintes. Talvez apresentem um daqueles candidatos suicida que aparecem à frente de uma corrida que não poderão nunca vencer apenas para que o partido não esteja completamente ausente nas eleições. Aliás, este senhor que actualmente ocupa a posição de presidente da república fez exactamente isso com um seu correlegionário e ex-ministro da defesa.

Depois, os presidentes preocupam-se em definir um estilo que lhes venha a ser atribuído e, quem sabe, mencionado de quando em vez como algo original que eles próprios desenvolveram. Admira-me até que não recorram a patentes neste campo, afinal, o patentear de tudo e mais alguma coisa está na moda…

Nos últimos presidentes tivemos o que criou as presidências abertas, ou seja, passeios gastronómicos e acções de campanha e os constantes ‘porque’ nos discursos mais inflamados. Depois o presidente do ‘é preciso’ e que fazia nada, recorrendo também aos passeios gastronómicos, agora chamados de semanas temáticas. Este é o da responsabilização da sociedade civil, o que sacode a água do capote e atira para todos os outros os problemas que, enquanto primeiro-ministro, não resolveu e, em alguns casos criou. Para este presidente a responsabilidade da resolução dos problemas e da sua existência é da sociedade civil, nunca da classe política de já quase lendária (se ao fosse mesmo lendária e não real) incompetência que governa Portugal há centenas de anos.

Quem tem culpa de os incêndios devastarem hectares e hectares de floresta todos os anos não é a classe política que, ano após ano não faz nada excepto operações de estética e reorganização inconsequente dos serviços de protecção civil e que, anos após ano recusa, teimosamente, a aquisição de meios adequados ao combate eficaz dos fogos. A culpa, para este presidente, é de quem faz piqueniques e lança foguetes.


A culpa do estado lastimoso dos serviços de saúde em Portugal não é da classe política e da sua incapacidade para enfrentar interesses e tomar uma atitude definitiva e concertada nesta área, é das pessoas que não se alimentam bem e não cuidam da saúde. Os portugueses ficam doentes demais.


A responsabilidade de combater a exclusão social não é da classe política, é da sociedade civil. Não é por culpa das más governações que os portugueses têm salários baixos e cargas fiscais altas, não é por culpa de presidentes que deixam aprovar sem remoque um orçamento que promove a exclusão social, nem pensar nisso, é a sociedade civil que tem responsabilidade em erradicar este problema, mesmo que a classe política tudo faça para que tal se agrave, algumas vezes, e nada faça para que se atenue, nunca.

Este presidente é inoperante e conivente com um governo mentiroso e incompetente. Este presidente coopera com uma classe política corrupta e mal intencionada.


Talvez o cronista que agradece esta atitude discorde de mim, talvez ele até concorde e não o possa dizer por forma a manter o seu estatuto de opinion maker e o seu emprego como jornalista, mas eu não tenho que o fazer e não lhe admito que fale por mim. Eu não agradeço nem concordo com as atitudes deste presidente e, como sou português, desminto aqui, assim, a sua generalização.

Saturday, September 02, 2006

O rumo da nossa história

Estive de férias.
Durante este idílico período, curto como todos os idílios, assisti a mais alguma televisão do que é costume. Afinal as férias são um período para mudar o comportamento habitual e sendo um período de indulgência pessoal, creio que ninguém me levará a mal ter cometido este pequeno pecado.
Numa dessas alturas em que estava adormecer o cérebro, assiti a um anúncio a um relógio, não me recordo agora se seria da Federação Portuguesa de Futebol, ou coisa corrupta do género, mas recordo-me que o referido instrumento cronográfico era autografado pelo brasileiro seleccionador de futebol de Portugal. Até aqui nada de estranho... A televisão estupidifica as massas e alguém lucra com isso.
O que achei chocante foi ao ponto de degradação a que a auto-estima dos portugueses chegou, ou poderá ter chegado.
Perto do final do anúncio um locutor afirma que o brasileiro seleccionador de futebol de Portugal é, passo a citar, " o homem que mudou o curso à nossa história", fim de citação.
Acho degradante que um locutor aceite proferir tais palavras acerca de um país com oito séculos de história e com milhares de pessoas que poderão ter alterado o rumo da mesma, enquanto nação, de uma forma verdadeiramente radical e, preferencialmente, positiva e que niguém, no longo percurso deste anúncio tenha impedido de se insultar de tal forma a história do país.
Peguei num livro de história e resolvi folheá-lo a procurar alguns nomes... Acabei por simplesmente ler o índice das legendas das ilustrações, aqui ficam alguns:

D. Afonso Henriques; Pedro Hispano; Rainha S. Isabel; D. Pedro I; D. Nuno Álvares Pereira; Infante D. Henrique; Gil Eanes; Vasco da Gama; D. Manuel I; Afonso de Albuquerque; Fernão de Magalhães; Luís de Camões; D. João IV; Marquês de Pombal; Bocage; Marechal-duque de Saldanha; Alexandre Herculano; Passos Manuel; D. Pedro V; Mouzinho de Albuquerque; António Nobre; Eça de Queirós; Teófilo Braga; Fernando Pessoa; Almada Negreiros; Sidónio Pais; Gago Coutinho; António Sérgio; General Humberto Delgado; Álvaro Cunhal; Mário Soares; Francisco Sá Carneiro; Salgueiro Maia; Otelo Saraiva de Carvalho; Ramalho Eanes; Maria de Lurdes Pintassilgo; Miguel Torga; José Afonso; Siza Vieira;Cavaco Silva; José Saramago, etc...

Quem é o brasileiro seleccionador de futebol de Portugal à beira de qualquer uma destas figuras e de muitas mais com importância e valor bem acima do que um mero treinador de futebol poderá alguma vez ambicionar, porque as suas funções são ligadas a algo supérfluo, fútil, uma diversão e nada mais, mesmo que seja um treinador excelente?
Que fez este estrangeiro por Portugal além de cobrar milhares e milhares de euros para fazer alguns jogos por ano? A selecção portuguesa ganhou alguma competição sob o comando deste tipo? Limitou-se a perder um pouco mais tarde, só isso... Nem sequer chegou tão longe como já foi conseguido antes.

Mesmo que fossemos tão pobres de história que tivessemos que recorrer ao desporto para termos motivos de admiração pelos nossos feitos como país e povo, outros nomes apresentam realmente vitórias e demonstrações de estar acima de tudo e de todos. Carlos Lopes e Rosa Mota, assim de repente, saltam à ideia. Se fossemos ainda tão parcos de ideias que tivessemos que ficar pelo futebol, merece muito mais crédito a selecção que conseguiu um terceiro lugar no campeonato do mundo de 1966 que é, até agora, a melhor classificação da selecção portuguesa de futebol.

É chocante que alguém idealize um anúncio com esta frase, que o locutor aceite dizer tamanha barbaridade, que a Federação Portuguesa de Futebol, ou algo corrupto do género, tenha aprovado tal texto, que as direcções das televisões aceitem transmiti-lo e ninguém se tenha apercebido da enormidade do insulto que se fazia a Portugal.
Mas o mais chocante de tudo, o mais desanimador, o mais revoltante, é saber que há portugueses que compram um artigo anunciado desta forma.
É esta consciência que me faz esperar que surja algo que, realmente, mude o curso à nossa história, porque estámos, enquanto povo e país a anular-nos e gastar-nos em nada, rendendo-nos à aceitação de que só poderemos vencer graças a um estrangeiro e em algo completamente fútil como o futebol.

Thursday, August 10, 2006

Rotice... Parte II

Em resposta ao post anterior, enviaram-me o seguinte vídeo para exemplificar rotice...



Obrigado C.

Friday, August 04, 2006

Rotice...

Mandaram-me um mail com o título 'Ser roto é...'.
Li-o, apesar de já ter recebido antes uma coisa parecida, e pus-me a pensar um pouco mais no seu conteúdo... como tenho hábito de tentar ver sempre uma via alternativa para os coisas e porque este blog se chama 'visões oblíquas' por isso mesmo, acabei por ver uma possibilidade que poderia parecer estranha a quem lesse a tal missiva sem lhe dar mais que o breve tempo que a sua leitura requer, ou merece, de atenção.
Acho que este mail foi escrito por um roto!
Talvez seja uma conspiração de rotos para chamar, mais uma vez, a atenção sobre si. Os rotos, pelo menos os activistas rotos, gostam muito de chamar a atenção para o facto de serem rotos, quer dêmos ou não importância a esse facto.
Vejamos então a oblíqua linha que nos permite detectar a origem rota deste documento;

Começa assim enumerando aquilo que constitui o ser roto:

'- Estar mais de seis minutos na Internet sem ver gajas nuas. E não valem
desculpas de que é a pagar e não sei quê, e que não quero dar o número do
cartão de crédito.'


Só um roto pensa que é preciso pagar para ver gajas nuas na Internet. Qualquer tipo não roto sabe que há montes de sites onde encontrar gajas nuas à borla... E seis minutos?!?!? Um tipo que não é roto está sempre na Internet com várias páginas abertas ao mesmo tempo. Algumas não têm gajas nuas, para disfarçar no caso de entrar alguém...

'- Pedir meias doses. Se se chama dose, é porque está calculado: é uma
dose.

Um homem, uma dose. Quem pede meia dose é meio homem. Cozido à portuguesa: é
comida de homem. Mas meia dose de cozido...

O pior é pedir meia dose de qualquer comida terminada em "inho" ou
"inhos": meia dose de bifinhos, meia dose de lulinhas... Comidas que
são de homem, para além do cozido: feijoada, mão de vaca, coelho à caçador e
todas as partes do porco. Tudo o que tiver porco é de homem.'


Qual é o homem merecedor desse epíteto que come tomates de porco? Ainda por cima uma dose inteira que sabe-se lá quantos guizos de porco terá lá pelo meio... Homem que é homem pode pedir meias doses, desde que seja comida decente. Cozido à portuguesa é uma comida sem imaginação... um monte de carnes, algumas de origem suspeita, cozidas com batatas e legumes. Isso é alguma coisa? Homem que é homem dá trabalho às mulheres que cozinham! Fá-las puxar pela cabeça e inventar comidas novas.... assim como as faz adaptar-se a posições sexuais novas! Cozido é comida de roto porque não dá trabalho nenhum às gajas.

'- Consolar as ex-namoradas dos amigos. A única maneira de fazer isto de
uma forma verdadeira masculina é comê-las no fim. Ou conseguir que elas nos
digam quantas é que eles conseguiam dar sem tirar.'


Mas que raio? Afinal, consolá-las é ou não roto? Só um roto poderia considerar que há outra forma de o fazer que não seja com uma valente queca... E que raio de homem está interessado na capacidade do outro? Não há muitas coisas mais rotas que a coscuvilhice... Gajo que se preze de o ser quer saber é quantas dá ele próprio sem tirar fora. Os outros que se amanhem...

'- Chegar aos trinta anos e não ter barriga. É roto!'


Preocupar-se se se tem barriga ou não é que é roto! Gajo que é gajo como deve ser não quer saber disso para nada. Os rotos é que passam a vida a olhar para o espelho e a pesar-se. Se é para se certifcarem que têm barriga porque já têm mais de trinta, ou para se certificarem que a não têm porque ainda não chegaram lá é indiferente. O que conta é a atitude...

'- Deixar que sejam elas a pôr o preservativo. Ser ela a pôr o
preservativo é como deixar que o adversário nos calce as luvas de boxe antes
dum combate.

Mas quem é que lhes disse que elas têm direito de mexer na vitalidade de um
homem? Após a consulta a um advogado sobre esta questão, estamos em condições
de apresentar um parecer:... ...

tecnicamente, o pénis é do homem - o que elas têm é um direito de usufruto.'


Consultar advogados é roto! Um homem a sério resolve os seus problemas sem recorrer a esses choninhas que só sabem chramingar-se e pedinchar aos juízes. Se é preciso fazer justiça, faz-se! A lei é para os rotos. Afinal, já olharam bem para quem as faz? Uma cambada de rotos!
E boxe com luvas??? Que rotice! Um gajo anda à pancada como monta... Sem 'luvas'...

'- Comer Calippos. As únicas coisas que um homem pode chupar são patas de
sapateira e cabeças de pescada.'


Comer Calippos é, definitivamente, roto! Mas chupar patas e cabeças de bichos também... Um gajo não chupa! Quem chupa são as gajas... Um gajo, quando muito, lambe. De resto a boca é só para comer e falar... pouco.

'- Ter gatos. Um gato não passa dum cão roto.

A: Tem guizo.

B: Toma banho na sua própria língua.

C e última: Um gato nunca se embebeda. Ou seja, um homem que tenha um gato em
casa está no fundo a viver uma intensa relação homossexual.

O dono dum cão chama-o com dignidade masculina:

"Savimbi, anda cá!" E assobia: "Aqui já!"

O dono dum gato chama-o "Bsss-bsss-bsss-bsss-bsss, bichaninho".'


Ter um cão sem guizos é que é roto! Um gato, mesmo que tenha um guizo só é muito macho. Só um roto acha que deve chamar um gato ou qualquer outro animal. Um gajo que tem um gato não o chama, compreeende que o gato, como macho que é, vai e vem quando e para onde quer e se o chamam ignora quem o fizer com dignidade masculina. Quem escreveu o mail nunca teve um gato como deve ser ou saberia que um gato se embebeda com a mesma facilidade que um cão e teria percebido que tomar banho na própria língua é uma prova de capacidade de sobrevivência e adaptação. Ao menos os gatos não cheiram o traseiro a outros gatos para os reconhecer...

'- Não ir à caça porque não há sítio para cagar. Um homem caga quando e
onde

lhe apetece. Quem nunca experimentou atingir um pato a zagalote com as calças
em baixo não sabe o que é ser homem. O que as mulheres não sabem é que a caça é
apenas uma grande desculpa para o homem poder ir para o mato marcar
território...'


Ir à caça, hoje em dia, é uma coisa de rotos. Que raio de homem caça com zagalote? Ainda por cima um pato, bicho inofensivo. Um homem como deve ser não caça nada que não o possa matar em cinco segundos e não caça com nada mais agressivo que um arco e flechas. Aquilo que muitos caçadores ainda não perceberam é que são rotos porque andam um ano inteiro à espera de poderem ir para o mato com... outros gajos! Ainda se fossem caçar com gajas e aproveitar para dar umas quantas trancadas no meio do mato... Agora caçar com gajos e caçadeiras? Que rotice!

'- Pedir bicas pingadas... É roto! Ou bicas escaldadas, ou bicas cheias,
ou duplas, ou cariocas, ou mesmo italianas... Bica é bica. A única coisa que se
pode acrescentar a uma bica é um bagaço ou um rissol.

Mas o pior de tudo são os descafeínados. "Ai, tire-me o café do meu
café". É roto!'


Pedir bicas é roto! Um homem não pede bicas... Um homem manda vir um café. Já repararam bem como fica a boca de uma pessoa a dizer 'bica'? Parece que se está a preparar para fazer um bico. Um tipo que pede bicas é um grande roto porque, no fundo, está a pedir para fazer um bico ao empregado. E quem é o anormal que molha um rissol num café? Um rissol é para comer sem molhar em nada. E o bagaço é para beber simples e puro... não há cá que misturar com nada. Quanto a pedir um descaféinado, isso é mesmo roto! Então se pedir uma 'bica descaféinada', mais vale por logo um carimbo na testa, com letras vermelhas a dizer 'ROTO!'

'- Saber o nome de mais de quatro bolos de pastelaria... Um homem que é
homem só sabe o nome da bola de Berlim, do bolo de arroz, do pastel de carne e
do croissant. Mas só para poder pedir um croissant com panado de carne.

Ver um... "homem"... ... entrar numa pastelaria e dizer: "Olhe,
embrulhe-me aí dois garibaldis, uma pirâmide, um éclaire..."

Com plantéis de 24 jogadores e 18 equipas na primeira liga, quem é que ainda
tem espaço na memória para decorar nomes de bolos?'


Homem que é homem não diz 'croissant'. 'Croissant' é francês que, toda a gente sabe, é língua de rotos. E haverá coisa mais rota, maior rotice, que decorar o nome de gajos? Um homem como deve ser só decora o nome das gajas que comeu, por um período limitado àquele em que é provável que as volte a encontrar. Além disso só se decoram números de telefone que possam ser úteis para se comerem mais gajas. Decorar o nome de jogadores de futebol é das coisas mais absolutamente rotas que há.

'- Pescar com cana... É rotíssimo! Uma coisa é sair para o mar alto às
duas da manhã com doze gajos completamente bêbedos para deitar redes ao mar
numa traineira chamada "Barba de Goraz"... Outra é ir aos domingos para
a Torre de Belém com uma caninha, umas minhocas e um tupperware com água para
guardar os peixinhos.

O bom da pesca é irem quinze tipos para alto mar e não se saber quantos é que
vão voltar.'


Rotice! Isto é como a caça... Um gajo só se mete num barco para ir para o mar, só o faz se for com gajas e não vai lá para pescar.

'- Ir à Feira do Livro. É roto! Para quê gastar trinta ou quarenta contos
em livros quando se pode ir à Ovibeja e trazer uma ovelha para casa?

Ir à feira é acordar bêbedo às sete e meia da manhã, calçar umas galochas, pôr
uma broa debaixo braço e ir à Feira da Cebola ou à Fatacil. Ou, aos sábados de
manhã, pegar na carrinha e ala para a Feira de Recauchutados e Rações nas
traseiras da Siderurgia Nacional.

Feira pressupõe porrada e chouriços e bonés. Não é cá livros do dia e gajos de
óculos e sessões de autógrafos.'

Ir à Feira é roto. Compras é para as gajas... Seja de que tipo for. Um gajo não vai às compras. Um gajo só vai a um local de comércio quando já sabe exactamente o que vai comprar e nem olha para mais nada. Andar a passear em recintos à procura de gastar dinheiro em alguma coisa é coisa de gaja.

'- Fado de Coimbra. É roto! O fado é para ser cantado em tascas por tipos
que só conhecem sete letras do abecedário e que julgam que tremoços é marisco.
E o fado não é cá para falar de amores de estudante. O fado é para contar
histórias com velhas, estropiados, pescadores, putas, sargetas e vinho tinto.'


O Fado é roto e pronto. O Fado é lamechas e as lamechices são para gajas e rotos. Mais nada!

'- Combinar encontros com homens à porta de cafés cinemas ou centros
comerciais. "Ai vem ter comigo à porta da pastelaria "Mirita".
Eu não me encontro com um homem à porta de sítio nenhum. Homem que é homem
marca encontros é na estrada para Cabanas, no quilómetro dezasseis junto ao cão
morto. Mais nada!'


Combinar encontros com homens é roto, vê-se logo! Um homem encontra-se por acaso com outros homens quando vai a caminho de comer uma gaja qualquer e deixa-a à espera porque ficou a conversar sobre as outras que já comeu antes. Mas come-a na mesma... que não há homem ou conversa que valham a pena deixar uma gaja por comer.

'- Usar calçadeira. A calçadeira é a vaselina dos pés! Se um homem tem
problemas em enfiar um pé num sapato à força, é claramente roto. Os sapatos
foram feitos para andar com 120 quilos em cima a arrastarem-se pela calçada em
cima do que acabámos de vomitar.'


Sapatos? Isso é coisa de roto. Como os fatos e as gravatas... Um homem a sério usa botas ou sapatilhas, calças de ganga, camisas e casacos. Mais nada. Os fatos são uma cedência às imposições das gajas e dos rotos da moda. E um gajo que perde montes de tempo a atar um pedaço de pano completamente inútil à volta do pescoço só pode ser roto!

'- Usar cigarreira.. "Ai não, é mais higiénico porque os maços
apanham humidade e podem contaminar os cigarros com bactérias."
Bactérias?! Um gajo anda a descarregar quilos de alcatrão para dentro dos
pulmões há dez anos e está preocupado com animais que só se vêem ao
microscópio?'


Fumar é coisa de roto. Deve ter sido a única observação válida do palerma do Freud... Fumar é chupar (que por si só é coisa de roto como já vimos) numa coisa cilindríca por prazer. É preciso dizer mais?


Este post é evidentemente humorístico. Ao contrário do autor do mail mencionado, se há coisa que eu não sei é o que é ser roto...

Sunday, July 09, 2006

Choque tecnológico? LOL

Depois de um período de férias em que não me apeteceu escrever neste blog e de um período de regresso ao trabalho em que rapidamente voltei a desejar estar em férias, aqui venho aborrecer-vos mais uma vez.

Li recentemente, numa revista dedicada à informática e num destes jornais que nos oferecem nos semáforos, que os portugueses eram atingidos pela iliteracia digital, como se a iliteracia digital fosse uma espécie de projectil e não o fruto de uma sequência quase centenária de políticas de educação indequadas e da alienação da população, por via dos meios de comunicação em massa.
A conclusão é fruto de um estudo do Eurostat acerca da utilização de computadores e da internet pela população dos 25 países membros da UE.
Segundo este estudo, que descarreguei do site do Eurostat para poder ver pelos meus olhos os dados, não confiando às cegas no que vem escrito nos jornais, uma vez que os erros e omissões, propositados ou não, são cada vez mais frequentes, 53% dos portugueses entre os 16 e os 74 anos nunca usaram um computador e 74% não usam a internet de forma regular.
No primeiro caso, da não utilização de computadores, apenas Grécia, Hungria e Itália registam valores piores, sendo que o Chipre apresenta um valor igual. No que respeita à frequência da utilização da Internet, já só a Grécia fica atrás, estando o Chipre, de novo, em igualdade com Portugal.
Outro aspecto preocupante, não mencionado nos artigos que referi, tem a ver com a utilização de computadores no ambiente de trabalho, isto é, qual a percentagem de pessoas empregadas que utilizam computadores de forma habitual nas suas tarefas profissionais. Portugal regista apenas 33%, o sexto valor mais baixo entre os 25 países da UE.
Olhando para estes valores, não pude deixar de me perguntar como seria possível implementar um 'choque tecnológico' na sociedade portuguesa, a curto prazo, como alardeia o governo actual. Não creio que, a curto prazo e com as medidas estapafúrdias tomadas, como a obrigatoriedade de certas operações serem feitas pela internet, tal se consiga. A única coisa que se vai conseguir é tornar a vida mais complicada a uma larga percentagem da população. Veja-se, por exemplo, a última bronca com a alteração dos números de segurança social para 11 dígitos e a consequente impossibilidade de liquidação de dívidas por Multibanco! Hilariante.
Este último caso faz-me também pensar nas possíveis consequências da unificação dos dados dos cidadão sob um cartão digital. Se o estado português é pródigo em fugas de informação - segredo de justiça? isso existe? - e incompetência no que respeita ao cruzamento e validação de dados - lembro só o caso da cobrança de IMI a pessoas que estavam isentas, tudo dentro do mesmo ministério - como poderei eu, que conheço os meandros e o mundo da informática estando por isso consciente que não existem sistemas 100% seguros, confiar informação sensível a esta entidade?
Um choque tecnológico poderá advir da implementação de políticas de educação orientadas para o futuro, de uma constância dessas políticas, não descurando a sua adaptabilidade e adequação à evolução tecnológica, e esforço real na sua realização, ao contrário da constante mudança de rumo, da confusão generalizada e da permanente instabilidade na vida dos professores que, naturalmente, se reflecte na qualidade de ensino.
Parece-me evidente que este 'choque tecnológico', para além de vir trazer mais uns subsídios a alguns amigalhaços, não passará de mais um chavão político, como já foram tantos outros no passado, a 'reforma da justiça', a 'transparência' a 'paixão pela educação', etc.

Thursday, June 01, 2006

Dia da criança

Por trás dos montes altos cobertos de urze, o sol vai nascendo, afastando do céu a cor púrpura que antecede a madrugada. De longe a longe podemos ver uma pequena casa de granito e caminhos poeirentos de terra batida onde o sulco das rodas de carros de bois ainda marcam presença, em conjunto com marcas menos profundas de pneus de motorizada.
Num desses caminhos vai-se tornando, minuto a minuto, mais nítida uma silhueta humana. É pequeno, este humano, veste roupas velhas, gastas e demasiado grandes para si. Numa das mãos carrega uma pequena marmita metálica e usa na cabeça, que vai baixa, uma boina também roída pelo tempo. A mão que carrega a marmita vai bem fechada, mostrando um vigor pouco consentâneo com a sua dimensão reduzida. A outra vai mais relaxada e acompanhando o seu ritmo e movimento poderemos observar que está calejada e que os dedos são fortes e grossos, habituados a esforço. São mãos de homem, mãos de quem trabalha materiais duros e resistentes, mãos queimadas por produtos agressivos, mãos adultas.
O sol desponta por fim sobre um pico e inunda o vale ainda fresco da noite com luz e calor. Nesta altura a figura ergue a cabeça e olha para os montes que a rodeiam. O olhar é vivo, brilhante, e chega longe. Mas há algo estranho neste olhar. Uma tristeza que se adivinha, a expressão de quem vê o belo e se sente preso por ele em vez de liberto como deveria. É um olhar estranho porque se vê normalmente em faces mais envelhecidas, não numa face de criança como esta.
Este rapazito não terá ainda doze anos e as suas mãos e o seu olhar mostram o cansaço e a desilusão de quem já não espera muito neste mundo. Este rapazito vai pelo caminho poeirento, de marmita na mão, em direcção a uma das casitas de pedra de granito que pululam pelo vale. Lá o espera o trabalho de coser sapatos, um após o outro, hora após hora por vinte cêntimos cada. É este critério, e não as horas que trabalha, que ditam o seu horário de trabalho. Quando voltar para casa da avó, já o sol se estará a pôr atrás dos montes, então do outro lado do vale.
Lá vai caminhando, cabisbaixo, pelo caminho poeirento e não volta a levantar o olhar quando por ele passa uma das motorizadas que competem com os carros de bois pela marcação dos caminhos.
Na motorizada segue um homem que tampouco olha o rapaz ao passar por ele. Vai perdido nos seu próprios problemas e também o seu olhar perdeu o brilho.
Este homem vem da fábrica têxtil onde esteve a trabalhar oito horas, de pé, em troca de um salário mínimo e alguns prémios que poderá obter se, durante o mês, fizer alguns turnos extra. Ultimamente tem feito muitos destes turnos extra. Não consegue estar em casa e é preferível ir para a fábrica a ir para o café embebedar-se como fazem muitos outros que conhece, alguns dos quais seus colegas que deixaram de trabalhar quando a fábrica reduziu ao pessoal. Não os pode enfrentar pois alguns sabem do que se passa na sua vida.
Agora vai a casa buscar a mulher, também ela funcionária da mesma fábrica, despedida para redução de custos.
Ao chegar pouco falarão, será melhor assim. Ela terá um parco pequeno almoço pronto para ele e logo depois de ele comer vão voltar a sair. Ele vai levá-la alguns quilómetros e freguesias de distância e deixá-la na estrada. Lá ela esperará pelos condutores e camionistas que lhe darão algum dinheiro em troca de um prazer breve e falso. Uma parte desse irá para aqueles que a 'protegem', a outra ficará para si. De vez em quando ela recorda com ironia o tempo em que olhava as outras mulheres na berma da estrada e se espantava como poderiam fazer aquilo e como poderiam haver homens prontos a pagar para estarem com elas pois sempre lhe pareceram figuras de mulher pouco atraentes. Gordas na sua maioria e com marcas evidentes de maus tratos, dentes partidos e dedos tortos de fracturas mal curadas. Agora ela vê a sua própria imagem ao espelho e já quase não consegue ver-se como era antes de se lhes ter juntado.
O marido volta para trás. Vai furioso e enojado consigo próprio. Como se deixara chegar àquele ponto? Deixando a sua mulher na beira da estrada para ser usada por outros homens? Invariavelmente pára algures pelo caminho e debate-se com a ideia de voltar para trás, pegar nela e fugirem os dois para longe... E depois lembra-se dos filhos. Da menina e do menino que ainda vão conseguindo manter na escola. Talvez um dia eles possam partir, o miúdo e a miúda, para longe. Irá trabalhar mais um turno hoje. Talvez os miúdos não tenham o destino daquele menino por quem passa todos os dias, que cose sapatos e parece um velho com apenas doze anos. Talvez um dia eles possam ir para a cidade grande. E este sonho guia-o por entre os caminhos poeirentos e as lágrimas que cada vez vão sendo menos.

Não longe dali, que nada são quatrocentos quilómetros neste mundo globalizado, na cidade grande, prepara-se a festa de inauguração de um local onde se gastaram doze milhões de contos. Um milhão de contos por cada ano daquele menino que cose sapatos para recuperar um local onde se torturarão animais. Um local a que chamam pequeno. Talvez por revelar a pequenez da mente de quem o frequenta ou de quem gere o dinheiro que permitiu a sua recuperação. A pequenez de quem prefere ver animais torturados a crianças felizes.


Nota: Este é um texto de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Coincidência essa que, apesar dos esforços do autor, é extremamente provável se este texto for analisado à luz do que se passa na região mais pobre da Europa, ou seja, o norte de Portugal.

Thursday, May 18, 2006

Isolation

In fear everyday, every evening
He calls her aloud from above,
Carefully watched for a reason,
Painstaking devotion and love,
Surrendered to self preservation,
From others who care for themselves.
A blindness that touches perfection,
But hurts just like anything else.

Isolation, isolation, isolation.

Mother I tried please believe me,
I'm doing the best that I can.
I'm ashamed of the things I've been put through,
I'm ashamed of the person I am.

Isolation, isolation, isolation.

But if you could just see the beauty,
These things I could never describe,
These pleasures a wayward distraction,
This is my one lucky prize.

Isolation, isolation, isolation, isolation, isolation.


Ian Curtis 15-July-1956 - 18-May-1980

Friday, May 12, 2006

Locais de que não se gosta.

Não me considero bairrista, até porque, na cidade em que nasci, o conceito de bairro não é muito presente, exceptuando talvez no que se refere à menção de bairros sociais, usualmente por associação à criminalidade.
Sou portuense, nascido em casa, em pleno centro da cidade invicta, mas não sou daqueles que consideram todas as outras cidades inferiores à sua. Isto não quer dizer que não goste particularmente da minha cidade, simplesmente não sou como tantos outros, um fanático que odeia Lisboa e coisas assim. Aliás, não posso dizer que exista uma cidade que odeie. A maioria das cidades que conheço até me agradam. Mas, como todas as pessoas, há um local que me desagrada particularmente.
E é, no meu caso, Vila Nova de Gaia.
Sempre que tenho que me deslocar ao centro da cidade de Vila Nova de Gaia, venho de lá com uma profunda sensação de exasperação, de cansaço e, não raras vezes, furibundo.
Não consigo entender como uma cidade que conheço há mais de trinta anos ainda não conseguiu eliminar a falta de organização e lógica na sua principal (e quase única) avenida. Desta última vez tive que a percorrer quase toda no sentido descendente para poder fazer inversão de marcha e subir pelo lado oposto... Ao ver o Porto, logo ali depois da Ponte D. Luís, a minha vontade foi ignorar todas as regras de trânsito e atravessar de regresso.

Os portuenses bairristas que se manifestam tão acirradamente contra Lisboa têm a mira mal afinada. Vila Nova de Gaia está mesmo ali, a sul do Douro, como primeiro bastião do sul e tem tanto para atacar.
Vila Nova de Gaia é mesmo mau.
Vila Nova de Gaia é uma cidade que nunca deixou de pensar como vila.
Vila Nova de Gaia não tem nada de interesse a não ser estar próxima do Porto.
Vila Nova de Gaia sempre quis ser parte do Porto, e como não o é, faz tudo para impedir que os portuenses cheguem lá. E se lá chegam, faz tudo para que lhes seja difícil regressar ao Porto. Foi por isso que Vila Nova de Gaia demorou tanto a ter o metro a funcionar, foi por isso que as obras do lado do Porto da ponte do Infante ficaram prontas meses antes das do lado de Vila Nova de Gaia.
Vila Nova de Gaia não tem personalidade própria. Tudo lá é para servir o Porto, ou aproveitamento dos méritos do Porto. Em Vila Nova de Gaia não há nenhum clube desportivo de renome, mas está lá localizado o centro de estágios do Futebol Clube... do Porto. A melhor paisagem que Vila Nova de Gaia proporciona é a vista... do Porto. As maiores atracções turísticas de Vila Nova de Gaia são as caves de vinho... do Porto. Vila Nova de Gaia recentemente começou a festejar com pompa e circunstância a noite do santo padroeiro... do Porto. O presidente de Vila Nova de Gaia sonha em ser presidente da Câmara... do Porto.
Enfim, Vila Nova de Gaia é uma tristeza.
Vila Nova de Gaia é tão mau, tão mau, que a única palavra que se lhe aplica é... Gaia.

Realmente, eu não gosto da cidade de Vila Nova de Gaia. Há outros locais, partes do concelho de Gaia que até me agradam, mas da cidade em si... não consigo.
E os meus leitores,se ainda os há, têm alguma cidade de que não gostem particularmente?

---###---

Corrigi a formatação do post anterior recentemente. Alguma coisa correu mal durante a publicação para o blogspot.
Já agora, que falo nele, existe uma pequena mensagem escondida naquela confusão de caracteres perto do fim. Quem me conhecer um pouco e tiver umas luzes básicas de criptografia e matemática pode descobrir qual é, embora eu duvide que alguém esteja interessado. ;-)

Friday, April 28, 2006

Conto erótico

Mais um sábado a trabalhar no escritório. Como era aborrecido ter de deixar o conforto da cama, a possibilidade de um dia de preguiça ou simples indolência, para cumprir as tarefas repetitivas que já se repetiam tantas vezes durante os outros dias da semana e que, apesar da constante repetição, mesmo assim, de modo misterioso,arranjavam forma de se acumular até este ponto.

Após o almoço deixara o marido com ar desolado em frente do televisor, percorrendo canais
sucessivos sem encontrar nada que lhe fixasse a atenção. Prometera não voltar muito tarde ao beijá-lo em despedida, mas até a ela a promessa soara algo oca, talvez pela consciência do volume de trabalho que a esperava.

E aqui estava, aborrecida, frente ao monitor de computador, já as quatro da tarde se haviam sumido num instante, como fazem todas as horas apesar de a nós nos parecer que algumas se
vão mais depressa que as outras consoante nos agradam mais ou menos. Tal como um alimento a vida parece-nos sempre a menos quando nos agrada e a mais quando não, como comprova cada criança que pede mais um pedaço de chocolate e reclama de mais uma colher de sopa.

Por lembrar chocolate agora se lhe saliva a boca e talvez por que tal guloseima seja,
segundo se diz, afrodisíaca, se lhe escapa a mente para as delícias que procurará obter do marido ao chegar a casa. Divaga um pouco do trabalho, os olhos percorrem a sala que, apesar dos cuidados diários da equipa de limpeza lhe parece sempre suja de trabalho, que essa é coisa que, mesmo nas mais higiénicas profissões, sempre suja.

Abana a cabeça e volta a concentrar a atenção no monitor. Mais logo terá possibilidade de
exercitar a imaginação, nessa altura com o benefício da companhia do amado.

Algum tempo passa e um movimento lhe capta a atenção. À porta da sala algo abana
ritmicamente, algo amarelo. Olha agora com a atenção fixa e apercebe-se que são flores... Um pequeno, mas engraçado, ramo de flores está a abanar-se ao longo da frincha que deixou aberta ao entrar.

Levanta-se e avança para lá, com um sorriso nos lábios, ainda incerto pela surpresa.

Ele ali está, o marido, sorrindo como sempre faz quando a tenta fazer feliz e sempre parecendo um rapazote atrapalhado pelas primeiras tentativas de cortejar uma rapariga. E o dela abre-se definitivamente, como sempre faz em resposta ao dele.

- O que fazes aqui?

- Estava farto de estar em casa. Vim fazer-te companhia. Já agora aproveito e trabalho também um pouco. – Responde ele e levanta o que traz na outra mão, o seu portátil. Depois estende o ramo de amores-perfeitos amarelos, as preferidas dela, abrindo ainda mais aquele sorriso malandro, agora menosinseguro por ver que ela não ficou aborrecida.

- És tolo. – Diz ela enquanto pega no ramo que depois leva às narinas e inspira profundamente. - São lindas. Obrigada.

- Não tenho direito a um beijo?

Ela inclina a cabeça ligeiramente e coloca uma expressão atrevida no rosto.

- Não sei...

Ele puxa-a para si e beija-a. Primeiro ao de leve e depois mais profundamente. Ela responde ao beijo mas interrompe-o pouco depois, olhando para os dois lados do corredor e dizendo depois, quase de forma conspiradora:

- Entra.

Ele entra, ainda abraçando-a pela cintura. Beijam-se de novo, as línguas já sedentas da
companhia uma da outra, como o resto dos seus corpos estava, quase sem que eles se apercebessem disso. Já ela pousou o ramo sobre uma das mesas e ele a mala do portátil e se abraçam mais estreitamente, as mãos dele agarrando-a, sôfregas.
Ela acaba por lhe colocar as mão no peito, afastando-o um pouco.

- Tenho que trabalhar.

Ele faz má cara, quase um cachorrinho maltratado pela pequena dona que adora, mas aceita a realidade.

- Onde posso ligar isto? – Aponta o portátil.

- Podes ir para a sala de reuniões, afirma ela. Lá tens internet e tudo.

- OK.

Beijam-se rapidamente de novo, ela toma o ramo e conduz o marido para a sala de reuniões onde ele se instala numa das cadeiras sem braços que aí estão dispostas ao redor da mesa
comprida. Faz as ligações de que necessita e senta-se, pronto para tomar ele conta do trabalho que lhe falta. Ela baixa-se e beija-o de novo.

- Obrigada por teres vindo. Adoro-te.

Olha-o nos olhos que brilham de satisfação e volta por sua vez para o local de trabalho.
Ela pode observá-lo pelos vidros, que separam a sala de reuniões do resto do espaço de
trabalho daquela secção, e ouvir o som do teclar que ele faz ao escrever pela
porta que ficou aberta.

Algumas horas se passam.

O som do teclar dele já se esgotou há algum tempo quando ela se apercebe disso. Está cansada do trabalho que foi fazendo. Coloca uma mão atrás do pescoço e massaja-o, tentando eliminar alguma da fadiga da posição. Olha o ramo pousado ao lado do teclado, sorri. O marido que está ainda com o olhar fixo no ecrã, mas não parece estar agora a trabalhar.

Levanta-se e vai até à porta da sala de reuniões e verifica que ele joga.

- Isto é que tu trabalhas? – Diz sorrindo.

- É muito importante... - Diz ele olhando-a. – Nem imaginas o que custa.

- Deixa-me experimentar.

- Está bem. Vê lá se consegues bater o meu recorde.

Ele afasta a cadeira um pouco da mesa para que ela se possa sentar no seu colo e ter acesso
ao rato.

Ela começa a jogar e em pouco tempo está embrenhada naquele mover e pressionar de botões.
Ele observa as jogadas dela, certo de que o seu recorde será batido em breve.

Encosta a cabeça ao ombro dela e inala o perfume dos seus cabelos. Percorre-lhe as costas com uma mão, percebendo o cansaço que ali se manifesta. Massaja-a lentamente, centrando os movimentos circulares e a pressão dos dedos mais próximo do pescoço dela.

A certa altura ela deita a cabeça para trás. – É bom. Continua... – diz.

Ele obedece, solícito, mas não sem antes aproveitar a posição para a beijar de novo.

– Está bem.

O pescoço já não está tão rígido e as costas estão mais maleáveis sob a camisola leve que ela veste. No final de um dos movimentos descendentes ao longo das costas ele pausa
ligeiramente e depois sobe enfiando as mãos debaixo da camisola.

– Assim é melhor...

Ela não responde. Continua, ou faz de conta, concentrada no jogo.

Ele massaja-a ainda mais um pouco, mas os movimentos para os lados são cada vez maiores e em
breve passam, ora uma, ora outra mão a abarcar também a frente do corpo dela e roçando a base dos peitos, a forma rendada do soutien.

A mão esquerda acaba por tomar o peito dela dentro de si, enchendo-se e apertando um pouco. A direita aperta os colchetes, soltando-os e abrindo assim o soutien. Rápida se dirige de novo para a frente e agora já sem o impedimento do tecido, enche-se por sua vez com o outro peito.

Ele agarra-a assim e puxa-a um pouco mais para si.

- Estás a desconcentrar-me...

Ela sorri ao dize-lo. Malandra e deliciada ao mesmo tempo.

- Não quero que batas o meu recorde. Diz ele mesmo antes de a beijar. A língua percorrendo os lábios entreabertos lentamente e depois penetrando-os, procurando a dela.

Ela interrompe o beijo e volta, sem grande convicção, ao jogo.

- Vou conseguir na mesma.

Ele sorri. Mergulha a face nos cabelos dela, inspira profundamente enquanto deixa que os
mamilos dela lhe escapem entre o indicador e o polegar, massajando-os tão suavemente que cada grau da rigidez crescente destes lhe é transmitida com uma nitidez incrível.

Afastando os cabelos para o lado, ele beija-lhe a base do pescoço, soltando por vezes a
língua levemente sobre a pele, quase só tocando os pequeníssimos e suaves pêlos, com um cuidado experimentado em não deixar demasiada saliva.

A pele arrepia-se e ele sabe que esse é o momento de deixar que uma das mão lhe caia
para a coxa e deslize sobre o fino tecido da saia, puxando-a aos poucos para cima em movimentos sucessivos. A outra mão puxa agora a camisola para cima e a boca dele pode percorrer uma maior distância sobre as costas dela, a respiração quente dele provocando novos arrepios na pele dela. Depois levanta também a parte da frente e roda-a um pouco para o lado para que lhe possa chegar ao peito com a boca.

Ela coloca-lhe uma mão na nuca e acaricia-lhe o cabelo com as pontas dos dedos. Depois
empurra-lhe um pouco a cabeça quando sente o mamilo envolto pelos lábios dele e a língua a dardejar rapidamente. Ele percebe a indicação e sabe que deve tomar mais do peito dela na boca, sugando, como fez no peito da mãe enquanto recém nascido, recebendo agora uma nutrição distinta, surpreendentemente menos física e primordial na sua natureza, quase um fluir de essência etérea entre eles, alimentando-os aos dois e não apenas a um.

A mão dele já desliza sobre a pele exposta da coxa dela, detendo-se de forma aliciadora pouco antes das calcinhas algumas vezes, antes de se permitir sentir o calor debaixo
do tecido. Mesmo então não passa para debaixo do pano. Percorre-o, pressionado lentamente, afastando estes outros lábios, tão diferentes fisicamente mas tão iguais na fome ou sede.

Só quando o calor e a humidade são muitos, e já a outra mão se encarrega de acariciar a
outra coxa, deixando o peito ainda ao cuidado da boca, a mão sobe ao longo do tecido e desce já debaixo do mesmo, os dedos explorando a selva de pelos que protege aquele local, qual templo oculto, onde um dos dedos penetra agora como um explorador maravilhado, mesmo que a vista já não seja nova.

Da boca dela que agora tocava uma das orelhas dele solta-se um brevíssimo suspiro acompanhado de um gemido baixo e expressivo.

Durante mais algum tempo ele lhe acaricia o sexo, afastando os lábios com os dedos anelar e
indicador, e tocando levemente o clitóris ora em movimentos circulares, ora pressionando um pouco mais e, de vez em quando, gradualmente, penetrando-a, cada vez mais profundamente com o dedo maior da mão direita.

Continuam a beijar-se, cada vez mais sedentos um do outro, com uma sede que cresce mais
quanto mais se mata. Uma das mãos dela afadiga-se com a fivela do cinto, depois com os botões dos jeans e finalmente toma para si o sexo quente e latejante tomado de vida própria.

Ele rodeia-lhe a cintura com um braço e levanta-se, fazendo-a dobrar-se sobre a mesa e o
portátil aberto onde ela já havia terminado o jogo. Depois levanta-lhe a saia sobre as costas, baixa os seus próprios jeans e penetra-a um pouco. As mãos voltam a tomar os peitos dela e ele dobra-se para lhe tornar a beijar as costas, tornando a penetração mais profunda a cada beijo.

O movimento acelera e ele ergue-se, agarrando-lhe a cintura com as duas mão e puxando-a
para si a cada penetração. Ela pousa as mãos sobre a mesa de reuniões, os dedos bem abertos para se segurar a cada uma das investidas dele e poder fazer pela sua vez força de encontro a ele. Estão cada vez mais sincronizados, cada vez mais cientes do prazer um do outro.

Ela acaba por levar a mão esquerda por entre as pernas para lhe acariciar os testículos, ele
por sua vez resolve juntar a sua à dela, mas para lhe acariciar o clitóris, agora mais rapidamente que antes.

O gemido dela que anuncia esse momento indescritível é seguido de um pequeno Ah! de
satisfação que atira alguma saliva de encontro ao ecrã do portátil que está directamente debaixo da cara dela. Poucos segundos depois ela sente-o impulsionar-se um pouco mais ainda para dentro dela, algo que parece sempre impossível até acontecer, e inundá-la de calor.

Depois quase tombam lado a lado, as cabeças bem juntas sobre a mesa de reuniões. Olham-se
assim, próximos como nunca e desde sempre estiveram, sorriem, beijam-se mais algumas vezes, agora com beijos rápidos e carinhosos. Não são precisas palavras, lêem tudo o que poderiam dizer um ao outro nos olhos.

Quando as palavras vêm, é para ela lhe lembrar onde estão e que devem compor-se, não vá aparecer alguém.

Mais tarde, já em casa, ele volta a abrir o jogo no portátil. Ao fim da primeira partida ri-se alto. No topo da classificação está um jogador que assinou ‘Passei-te!’

Na segunda seguinte ele volta do trabalho e traz-lhe algumas folhas impressas e estende-lhas, sorrindo.

- Ora vê lá o que fizeste...

Na última página depois de algum texto encontra-se o seguinte:

aPasrwaasda5Cqdsafraq3mdxsfreonfsroqc5msofm5mqAsorm6m

3zxodo3rr2qsssre6edmfsrp3pdrrr6qdesetq25dsreq5dsre6wdfsxre6dsre5q4

dsftw2dsrpoersde4w2çlºp+0dsr6e-.ªÇs6dtr

sdçxdsfrorsd5ºp~srsdr5qçoºpsqr5çlr5sçl6rslçr5sçºsr5çor5s5rers5

5555555555555oççrs555555555555555

- É a linguagem do sexo! - Diz ele rindo.

Tuesday, April 25, 2006

25 de Abril sempre!

Há dias, durante uma das minhas, agora raras, deambulações pela internet, tropecei num blog nacionalista. Ou pro-fascista, ou coisa do género, que não sei bem qual o nome que agora usam. Enfim um desses que advogam o retorno ao passado, a renegação da evolução, que culpam de tudo o que está mal agora, a revolução de 1974.
Um dos artigos, dos poucos que saiam do âmbito futebolístico, coisa que parece propícia à proliferação desta ideologia, versava na questão do orgulho. Dizia a autora que hoje em dia se perdeu o orgulho em ser português, a não ser quando a selecção nacional de futebol está envolvida numa grande competição, que se ensina às criancinhas que devem ter vergonha da sua nacionalidade, que os descobrimentos estão esquecidos, que o império foi destruído pelos traidores que nos governam que, enfim, dantes é que era bom...
Podia aproveitar a deixa e rebater algumas destas afirmações. Podia, por exemplo, dizer que colocar bandeirinhas à janela quando a selecção joga não é um acto de patriotismo mas de puro embarque numa campanha publicitária, algo cuja relevância e contributo para o progresso do país é, efectivamente, nulo. Podia dizer que nunca ouvi numa escola denegrir os descobrimentos ou mostrar a sua face mais negativa, que já há muito não via tanta preocupação escolar em dar a velha imagem do Portugal heróico e imaculado como agora e que o império já estava moribumdo quando se deu a revolução e, embora tenha sido mal feita, a descolonização era inevitável... Podia, mas não o vou fazer.
Vou antes, para não fugir ao espírito que presidiu a criação deste humilde blog, dar uma visão oblíqua do orgulho nacional.

O orgulho nacional tem duas faces, como qualquer medalha ou moeda. De um lado temos caras, do outro coroas. De um lado temos o orgulho, do outro a vergonha.
Devemos ter orgulho em termos descoberto meio mundo? Sim, claro. Mas não devemo ter também vergonha de ter acompanhado isso com a escravatura?
Devemos ter orgulho em ter sido, senão o primeiro, um dos primeiros países europeus a abolir a escravatura? Sim, claro. Mas não devemos esquecer que, na prática, ela só terminou em 1974 e isso é uma vergonha.
Devemos ter orgulho em nos termos libertado de uma ditadura de décadas com uma revolução pacífica e inspiradora da libertação de outros povos, como o brasileiro? Sim, claro. Mas não devemos também ter vergonha de, durante trinta anos, não termos sabido escolher os nossos governantes e exigido deles o cumprimento do seus deveres e promessas?
Devemos ter orgulho em aceitar o desafio e participar na construção de uma europa mais forte? Sim, claro. Mas não devemos ter vergonha do péssimo aproveitamento que fizemos das oportunidades e benesses dadas por essa mesma europa?
Todos os países têm de que se orgulhar e de que se envergonhar. Não há nenhum país sem mácula histórica. Nenhum que tenha um grande feito histórico a que não se possam associar aspectos negativos. É, podíamos dizer por força da constância histórica, uma lei da vida.

A autora do outro blog, provavelmente, não concordará comigo, ou argumentará que algumas coisas que digo são falsas. É um direito que lhe assiste... Nem todos temos de pensar por nós mesmos, ou optar por não seguir ideologias alheias. Nem todos somos obrigados a procurar um caminho próprio, sem alinhamento ou liderança que não a nossa consciência. Alguns preferem ser conduzidos e doutrinados em ideologias ultrapassadas. É um direito que devemos respeitar. Um direito que a própria revolução de Abril de 1974 procurou e conseguiu, até agora, fazer vingar.

Há algo, portanto, em que nos distinguimos à partida. Eu, fruto do que aprendi sobre o 25 de Abril de 1974, sei que, mesmo discordando, devo permitir que os outros tenham a sua opinião. Ela, a conseguir que a sua ideologia vingasse, procuraria reprimir a minha...

Por isso, e mesmo sabendo que alguns gostariam que nunca tivesse ocorrido, eu afirmo aqui, em homenagem aos que arriscaram as vidas para o fazer, contra todas as forças de repressão, em Portugal ou noutro lado qualquer, agora e até ao fim dos meus dias:

25 de Abril, sempre! Fascismo, nunca mais!

Wednesday, March 22, 2006

Artists and products

The kid has an excellent voice. He knows how to sing too. The band is great, the production flawless and the songs are songs that I like to hear. Somehow, I can't bring myself to enjoy it, though. To trully enjoy it.
It could be the annoying audience with its wows and yeahs shouted in shrill voices every couple of seconds, as if the only way the public is able to demonstrate their enjoyment is by interrupting it.
But it isn't. Something else is wrong and I can't determine what it is.
So I flip back again to the movie I was watching and its breaks that ultimately seem to last as long as the movie itself. In the back of my mind, the doubt keeps popping up. What is it? What is wrong with that show?
Upon the next break, I flip again to the concert and watch a bit more. Now a duet is being sung. I don't enjoy this particular song, but maybe I have found a clue to what was wrong before. It could be the phrasing the kid uses. Too elaborate... Too many extra notes and variations over the original theme.
The duet ends and an oily dialog of mutual compliments follows between the kid and the woman he sang with.
An attempt at humor ensues, but it is flawed and badly acted by the kid who pretends to mock some other singer that shows up behind him during this pretense mocking. The surprise is faked... Too obviously faked. He should definetly stick to singing...
The break should be almost over and so I get back to another desperatly short period of the movie, still wondering what exactly was wrong with the musical parts of the show. I know I'll flip back to it at the next break.
And lo and behold! It's upon me.
A song is just finishing, one I like this time and catch enough of to realize that that little indeterminate something that prevents me from enjoying the singing is still there.
The kid now tells us that he is tired of singing jazz classics. He tells us in fact, that he does not even like jazz, that jazz is the musical decay of a blues band. So he proceeds, following some logic that I am unable to grasp, to a pop song. This delights the hysterical women in the audience, which I now realize is mostly female.
Now I have it. Now I see what eluded me before. What seeped through the good voice, the great band. It's the difference between an artist and a product. An artist loves and, therefore, respects his art, usually more than anything else. A product does what he must to be profitable and it never fails to show the utter disrespect it has toward the art that feeds it.
The kid is no singer, no artist, after all. The kid is yet, unfortunatly, one more waste of natural ability. The kid is just another product...

Wednesday, March 15, 2006

Stardust

Ouvi hoje uma música excelente... e para amenizar o tom deste blog depois do post de ontem, resolvi partilhar convosco a possibilidade de a conhecerem também.
Uma versão em trompetes tocada por Doc Cheatham e Nicholas Payton, de Stardust. Uma composição soberba de Hoagy Carmichael, com letra de Mitchell Parish e celebrizada, entre outros pela melhor voz masculina da história do jazz, Nat King Cole. Apesar de esta versão não contar com essa voz e não ser cantada sequer, a letra quase se adivinha na interpretação dos trompetistas.
Aqui fica a letra, para abrir o apetite àqueles que sejam suficientemente curiosos para procurar esta versão, ou outras, e assim se deliciarem como eu...

Stardust

And now the purple dusk of twilight time
Steals across the meadows of my heart
High up in the sky the little stars climb
Always reminding me that we’re apart

You wander down the lane and far away
Leaving me a song that will not die
Love is now the stardust of yesterday
The music of the years gone by

Sometimes I wonder why I spend
The lonely night dreaming of a song
The melody haunts my reverie
And I am once again with you
When our love was new
And each kiss an inspiration
But that was long ago
Now my consolation
Is in the stardust of a song

Beside a garden wall
When stars are bright
You are in my arms
The nightingale tells his fairy tale
A paradise where roses bloom
Though I dream in vain
In my heart it will remain
My stardust melody
The memory of love’s refrain

Até breve...

Tuesday, March 14, 2006

A legalização da prostituição

Há uns dias ouvi na rádio, a propósito de testes médicos efectuados a algumas prostitutas que revelaram uma incidência preocupante de doenças sexualmente transmissíveis, uma nova defesa da legalização da prostituição.

Não creio que tal medida fosse melhorar a situação...
Argumenta-se que poderiam as prostitutas (curiosamente, nestes casos fala-se sempre de prostituição feminina, mas já lá iremos...) ser submetidas a testes de saúde para evitar o contágio dos clientes e que tal poderia diminuir o avanço galopante da SIDA em Portugal. Mas, pergunto, e os clientes? Seriam também estes sujeitos a controlo sanitário antes de recorrerem aos serviços prestados pelas prostitutas por forma a garantir que não as contaminariam a elas? Como se conjuga isto com a defesa da privacidade dos clientes? Como garantir que a prática sexual era feita com uso de preservativo? Eu cá só tenho pena daqueles que os clientes contaminam depois... Quanto aos clientes por si só, só têm o que merecem.
Muitos outros problemas surgem e creio que a legalização da prostituição não seria assim tão eficaz para o controlo da saúde pública, principalmente com a tradição bem portuguesa de dar uns jeitinhos aqui e ali para dar a volta à legalidade...


Acho curiosa a situação actual da lei em que a prostituição não é bem ilegal, mas sim o proxenetismo... O aproveitamento da situação de desespero de uma pessoa para lucrar com a sua disponibilidade para abdicar da sua dignidade. Mas o recurso à prostituição pelos clientes não é, tanto quanto sei, ilegal. Não será o recurso a estes serviços também um aproveitamento do desespero alheio? Não será, do ponto de vista moral, tão reprovavel lucrar com esse desespero, como obter satisfação do mesmo? Porque carga de água não se ilegaliza o recurso à prostituição e se julgam e prendem os clientes? Talvez isso reduzisse a prática...
Muitos argumentarão que a lei não é uma imposição de padrões morais, mas tal não é verdade. A lei não é mais que a expressão regulamentada dos padrões morais da sociedade em geral. Veja-se, por exemplo o caso da ilegalidade do aborto. Nada mais que uma imposição de moralidade. Em ambos os casos se trata de mulheres que se encontram num estado de desespero extremo, em que estão prontas a abdicar de tudo, a submeter-se a tudo e a arriscar tudo... Umas são tratadas como vítimas e as outras como criminosas. Uma dualidade de critérios típica de decisões morais. É tudo uma questão de definição da 'linha de aceitação'.

Vejamos ainda um outro factor interessante, mencionado há pouco.
É assumido, na generalidade das discussões sobre este tema, que a prostituição é feminina. Quando se fala na instituição de bordeis, assume-se que serão locais onde mulheres se prostituirão.
Mas porque não a prostituição masculina? Porque não poderão as mulheres ir também a bordeis dar umas quecas?
Sempre que coloco esta questão àqueles e àquelas que defendem a legalização da prostituição, divirto-me imenso com as reacções. Normalmente eles ficam escandalizados, embora alguns até aceitem, desde que não fosse a mulher deles a fazê-lo. Elas costumam aceitar mais facilmente, até porque isso seria mais uma equiparação aos homens mesmo que num dos seus aspectos mais negativos, mas muitas acham isso chocante.
Então quando eu coloco ainda um outro dilema, as coisas tornam-se mesmo fantásticas...
Se vamos assumir que não há nenhum problema coma prostituição de homens ou mulheres, porque não de crianças? Há, claramente, mercado... Procura e oferta. É apenas uma questão de mudança de dia... Num dia são crianças, no outro têm mais de dezoito anos. Porque se poderão prostituir hoje e não se podiam prostituir ontem?
Porque não? Trata-se apenas de mover a 'linha de aceitação' um grau para baixo... Afinal, já houve tempos em que um homem de trinta desposar uma menina de doze era perfeitamente normal. Nos tempos do império romano não havia qualquer obstáculo a um cidadão ter rapazinhos ao seu serviço, que incluia frequentemente a satisfação sexual.

Não será a legalização e aceitação da prostituição, afinal, uma regressão cultural? Não será aceitar a degradação da condição humana por força de condicionantes económicas? Não será admitir que o dinheiro, afinal, sempre pode comprar tudo?

Sunday, February 26, 2006

Teleguês

Poemeto em Teleguês

Os tudantes tudam com afinco
Para passarem os anos colares.
Nas tradas os túpidos condutores
Tampam-se a intervalos regulares.

Deputados colhidos pelos eleitores
Recursos gotam a ritmo alucinante.
Outros políticos perançosos criticam
Mas só tentam roubar os tachos pectaculares.

Médicos forçados lutam com condições
Nos cassos hospitais tatais.
Os jornalistas crevem sobre nada
Além dos vaziados tádios de futebol.

E entre todos tes ataques
Alguns crupulosos critores
Insistem nas peranças de salvar
As letras tóricas nacionais.

Certas coisas quecidas são
Nas tações de rádio,
Nos tupidificantes canais
E assim se vai matando a velhinha dicção.

Monday, February 13, 2006

O fim da democracia - Parte 3

Começando por pedir, àqueles - certamente poucos - a quem isso faz diferença, desculpa pela demora neste post, alguns dias depois do prazo que acidentalmente se tornou semanal, venho apresentar-vos o terceiro e último post dedicado à aproximação do fim da democracia tal como a conhecemos.

Como não gosto muito de criticar as coisas sem apresentar soluções ou, pelo menos, ideias alternativas, procurarei terminar esta série de posts com algumas ideias que já me passaram pela cabeça como sendo possíveis evoluções ao regime partidocrático em que vivemos actualmente.

Creio que o maior problema que Portugal tem enfrentado enquanto jovem democracia se prende com a forma como está organizado o sistema eleitoral. Este favorece as máquinas partidárias de maior dimensão e afasta os eleitos dos eleitores pois a maioria deles não sabe quem elege para quê e nenhum tem forma de obrigar aqueles que elegeu a cumprirem os seus programas, quanto mais as promessas eleitorais que fazem e que, invariavelmente não cumprem. Além disso, potencia a corrupção e assenta sobre as constantes questiúnculas políticas que são um entrave à definição de objectivos estratégicos e impossibilita a realização dos poucos que acabam por surgir.

Em primeiro lugar, apenas porque se trata da eleição mais recente, acho que a figura de Presidente da República se tornou inútil, quando não perigosa... O melhor exemplo desta pericolosidade veio de Jorge Sampaio que condicionou a sua decisão de dissolver o Parlamento à estratégia partidária e às suas preferências relativamente ao líder do seu partido... É evidente que a dissolução não foi feita antes, logo na altura da fuga de Durão Barroso para Bruxelas, porque Ferro Rodrigues não era uma figura que pudesse garantir uma vitória retumbante para o PS e nunca foi um dos favoritos de Jorge Sampaio entre os membros do PS. A sua inutilidade é demonstrada diariamente e o exemplo mais flagrante foi a situação do envio de tropas para o Iraque em que o Presidente da República foi 'rodeado' com um artifício do governo para mandar portugueses para colaborar com uma ocupação ilegal e injustificada, mesmo contra a vontade da única entidade que tem poder para declarar guerra.
Assim, e até por uma questão de poupança, acho que esta figura deveria ser extinta.

A ideia anterior poderá ser perigosa no actual quadro político uma vez que um governo de maioria absoluta poderia ainda fazer mais bacoradas que o actual. Mas para enfrentar este problema bastará que nenhum governo seja unipartidário. Se o número de ministros fosse definido antes das eleições e a constituição do governo tivesse que ser proporcional à votação nos vários partidos, nenhum partido poderia, como actualmente, manobrar a rédea solta... Além disso, seria, verdadeiramente, um governo representativo do povo, coisa que o actual não é.
Antes que alguém se escandalize com esta última afirmação, chamo a atenção para vários factos:

1) O partido vencedor da últimas eleições legislativas recolheu 45,03% dos votos expressos. A abstenção foi de 35,74%... Menos de 10% de diferença.

2) Sendo simpático e arredondando a percentagem de votos do tal partido para 50% dos 65% (também um arredondamento simpático para o partido) que votaram, podemos dizer que este governo representa 32,5% da população.

Resumindo, 67,5% da população não se revê neste governo. Alguns (52,93% dos votantes - todos os votantes noutros partidos) estão manifestamente contra e muitos estão insatisfeitos com toda a classe política. Não é por acaso que quase todas as forças políticas fazem da abstenção o seu grande inimigo. Muitos políticos já perceberam que a população não se revê neles e que nenhum sistema político sobrevive muito tempo à insatisfação da população.

Voltando à proposta de governos pluripartidários, tal tornaria a governação mais transparente e reduziria as quesílias menores em que a política como a conhecemos hoje é prolífica, podendo os governos concentrar-se mais numa governação de qualidade que nas estratégias de manutenção do poder e todos os partidos terem interesse numa governação bem sucedida.

Por último, creio que qualquer democracia que possa assim ser apelidada com rigor deverá garantir que todos os cidadão possam saber quem, especificamente, os representa e possam manifestar o seu desagrado quando tais representantes se desviassem daquilo que os seus eleitores acham ser correcto ou o seu apoio às iniciativas louváveis... Isto de avaliações a anónimos de 4 em 4 anos já deu o que tinha a dar.

Esperando não vos ter aborrecido demasiado, despeço-me para já, prometendo posts mais divertidos no futuro próximo... Estou a pensar num poemazito em 'Teleguês'...

Sunday, January 29, 2006

O fim da democracia - Parte 2 -

Há uma semana atrás, dia da realização das eleições presidenciais, iniciei aqui uma reflexão sobre a democracia e os sitemas políticos. Parte dessa reflexão era originada por ter encontrado uma ideia similar à minha do site da Edge, originada pela pergunta anual para 2006.

Há também algum tempo, li um artigo em que se especulava que a continua evolução dos sistemas políticos actuais, a par com o liberalismo económico, iria conduzir à extinção da noção de estado, sendo este substituido por um conjunto de entidades 'privadas' que controlariam aspectos da sociedade pelas quais hoje o estado é responsável.
Esta ideia é tanto mais perturbante quanto podemos ver que cada vez são mais os sinais da sua implementação.
Nas ditas democracias ocidentais, assentes em economias de mercado, o estado tem vindo a entregar muitos dos sectores que eram considerados estratégicos a empresas privadas, em nome de uma suposta maior eficácia e eficiência na sua gestão.
Isto levanta duas questões;

1) O que acontecerá se estas entidades privadas, por exemplo porque a população se manifesta contra um determinado aumento, resolverem privar a população dos serviços que prestam? Não estará a própria noção de liberdade e sobrevivência a ser posta em causa com esta prática?

Imaginemos que a EDP resolvia aumentar de forma brutal o preço da electricidade, que a população de uma determinada cidade se recusava, em massa, a pagar este preço exorbitante e que em consequência, a EDP resolvia suspender o fornecimento de energia eléctrica. De que forma poderia a população defender-se? Quantas pessoas morreriam antes que ocorresse uma revolta popular?
Este poderá parecer um cenário fantástico e impossível, mas não é assim. Se a EDP não detivesse o monopólio da sua área de negócio, as probabilidades seriam menores pois a população procuraria um concorrente, mas este não é o caso e, em Portugal de uma forma particular, a lei da concorrência não funciona pois as empresas já perceberam que podem ganhar todas muito se não se degladiarem entre si. Veja-se o que se passa com a gasolina, por exemplo. Para além disto, basta recordar o recente conflito energético entre a Rússia e a Ucrânia para perceber que não é tão difícil assim acontecer algo do género.

2) Se as empresas privadas prestam um melhor serviço que as estatais, para que precisamos do 'aparelho de estado'? Para quê pagar ordenados à classe política se estes são completamente inúteis?

Na verdade, esta segunda questão já se coloca, mesmo sem a entrega completa de todas as funções do estado a privados. É patente que, cada vez mais, os políticos elegíveis estão ao serviço de entidades privadas e são impulsionados por estas na direcção da eleição. Daí a crescente presença de ex-políticos na direcção de empresas privadas.
Muitos lerão isto e pensarão que não é assim, que as pessoas votam de acordo com a sua consciência e que elas é que controlam quem é eleito ou não. A esses pergunto se é mais fácil dirigir e enganar uma multidão ou uma pessoa só. As populações vivem iludidas e manipuladas das formas mais subtis. Quantas pessoas conhecem que leiam os programas eleitorais antes de votarem? E mesmo que o façam e depois cheguem à conclusão que o programa era uma treta e que não está a ser cumprido, o que podem fazer nessa altura?

'Democracia' significa, etimologicamente, 'poder do povo', mas na prática, o povo não pode nada...

Conclui no próximo post.

Sunday, January 22, 2006

O fim da democracia

Hoje parece-me o dia ideal para começar um post sobre a democracia. Esta será só a primeira parte, cuja génese está intimamnete relacionada com uma ideia que alimento há bastante tempo e que vi reflectida, em parte, na resposta dada por Haim Harari à pergunta anual do site Edge , que este ano é, 'Qual a sua ideia mais perigosa?'. Essa ideia é a de que a Democracia pode ter chegado, enquanto sistema político, ao esgotamento. A resposta de Haim Harari pode ser lida seguindo o link abaixo:

Página com a resposta de Haim Harari

Para mim, todos os sistemas políticos têm um período de vida, e o seu fim apresenta-se quando a generalidade da população se apercebe que, aquilo que parecia uma excelente ideia e a aparente solução para a gestão dos povos foi, mais uma vez, corrompido e deturpado. Isto é inevitável enquanto os sistemas políticos assentarem no exercício do poder de um ser humano sobre outro. O poder corrompe, invariavel, inevitavel e inexoravelmente.
Isto aconteceu com todos os sistemas políticos no passado e vai acontecer com a democracia representativa, tal como a conhecemos.
Aconteceu com o despotismo, com a monarquia feudal e com a monarquia absolutista, acontece neste momento com as monarquias constitucionalistas, aconteceu com a ideia de república, com ditaduras assentes na ideologia fascista e com as assentes no comunismo, acontecerá com a democracia representativa.
Em todos os casos passados, aconteceu porque os homens que exerciam o poder corromperam a ideia original a tal ponto que esta acabou por servir apenas os interesses de alguns em deterimento da maioria. Costumo dizer que a melhor forma de destruir uma excelente ideia é torná-la numa instituição, precisamente porque a vasta maioria dos sistemas políticos que a humanidade conheceu aparentemente assentava em bons princípios e tinha origem em óptimas ideias para a procura de um sistema que permitisse aos homens viver em sociedade.

A grande questão que coloco, no seguimento desta ideia, é se estaremos preparados para começar a procurar um sistema diferente. Falar nos defeitos da democracia tornou-se tabu. Para muitos o sistema actual é o melhor que é possível atingir... Dizem alguns que é preciso ser pragmático e aceitar que não poderemos ir mais além. Eu acho que o pragmatismo é só uma forma diferente de derrotismo... É a forma elegante de ser cobarde e desistir de lutar pela perfeição.

Para continuar...

Friday, January 06, 2006

A morte do silêncio num minuto de aplausos

Peço-lhe, caro leitor, que no fim de ler este parágrafo, caso a sua gentileza e paciência para com este pobre escriba o façam chegar lá, guarde um minuto de silêncio. Não será fácil pois existirá ruído com certeza. O trabalhar do computador onde lê este blog, talvez os sons que lhe chegam da rua, quem sabe até a música que ouve enquanto se passeia pela informação disponível na internet. Não será fácil mas peço-lhe que tente, agora, sentir o peso de um minuto de silêncio.






Se o conseguiu, poderá melhor apreciar o que pretendo transmitir com o post de hoje.
Recentemente verifico a ocorrência de um fenómeno na sociedade que se prende com o silêncio. O desrespeito pelo mesmo quando se pede que seja guardado um minuto de silêncio em memória de alguém ou para recordar um acontecimento trágico. Já assisti, a pelo menos duas ocasiões em que o minuto de silêncio foi preenchido por aplausos. Uma das quais num acontecimento desportivo onde estavam presentes estranjeiros que se entreolhavam chocados e surpreendidos pela atitude do público português em aplaudir durante aquele período. Alguns chegaram mesmo a assobiar e apupar essa atitude.
A ideia do minuto de silêncio é, em primeiro lugar, demonstrar pesar pela perda e respeito pela memória dos que nos deixaram, normalmente em situações trágicas. Em segundo pretende-se que as pessoas meditem durante esse período em tudo aquilo que pode significar para elas a morte de outros seres humanos e, consequentemente, em tomar consciência de que, inevitavelmente, chegará a sua vez.
Este silêncio permite a introspecção. Permite apreciar o peso dos sentimentos.
Da última vez em que vi o minuto de silêncio assim violado, as pessoas sorriam enquanto aplaudiam e conversavam com quem estava ao seu lado... Todo o significado da homenagem estava perdido para elas e portanto, a própria homenagem ficava vazia do mesmo.
Não tenho a certeza se em todas as culturas o silêncio tem o mesmo significado, mas sei que se observarmos uma criança, ainda não deformada pelas modas e imposições da sociedade, notaremos que os aplausos são manifestação de alegria e o silêncio significa abstracção, concentração e em caso de existirem motivos, tristeza.
Tive já também o privilégio de estar em locais onde o silêncio reina. No topo das montanhas do Gerês, podemos sentir a paz e a tranquilidade que a quietude da natureza traz. Debaixo de água, a beleza da vida marinha goza-se mergulhado num mundo em que o nosso ouvir é um sentido quase inútil.

Não sei o que motiva esta atitude. Talvez o povo português esteja já tão triste e desiludido que não suporte os momentos em que se espera que se sinta ainda mais assim... Talvez seja só uma moda, estúpida como todas as modas. Um querer ser diferente só por ser diferente...
Seja como for, o silêncio, com todos os seus significados e beleza está a fugir-nos e com esta atitude, poderemos estar a matá-lo.
Espero que o minuto de menor ruído que lhe pedi antes tenha servido para o sensibilizar. E se não foi o caso, ao menos que sirva de homenagem ao moribundo silêncio...