Há dias, durante uma das minhas, agora raras, deambulações pela internet, tropecei num blog nacionalista. Ou pro-fascista, ou coisa do género, que não sei bem qual o nome que agora usam. Enfim um desses que advogam o retorno ao passado, a renegação da evolução, que culpam de tudo o que está mal agora, a revolução de 1974.
Um dos artigos, dos poucos que saiam do âmbito futebolístico, coisa que parece propícia à proliferação desta ideologia, versava na questão do orgulho. Dizia a autora que hoje em dia se perdeu o orgulho em ser português, a não ser quando a selecção nacional de futebol está envolvida numa grande competição, que se ensina às criancinhas que devem ter vergonha da sua nacionalidade, que os descobrimentos estão esquecidos, que o império foi destruído pelos traidores que nos governam que, enfim, dantes é que era bom...
Podia aproveitar a deixa e rebater algumas destas afirmações. Podia, por exemplo, dizer que colocar bandeirinhas à janela quando a selecção joga não é um acto de patriotismo mas de puro embarque numa campanha publicitária, algo cuja relevância e contributo para o progresso do país é, efectivamente, nulo. Podia dizer que nunca ouvi numa escola denegrir os descobrimentos ou mostrar a sua face mais negativa, que já há muito não via tanta preocupação escolar em dar a velha imagem do Portugal heróico e imaculado como agora e que o império já estava moribumdo quando se deu a revolução e, embora tenha sido mal feita, a descolonização era inevitável... Podia, mas não o vou fazer.
Vou antes, para não fugir ao espírito que presidiu a criação deste humilde blog, dar uma visão oblíqua do orgulho nacional.
O orgulho nacional tem duas faces, como qualquer medalha ou moeda. De um lado temos caras, do outro coroas. De um lado temos o orgulho, do outro a vergonha.
Devemos ter orgulho em termos descoberto meio mundo? Sim, claro. Mas não devemo ter também vergonha de ter acompanhado isso com a escravatura?
Devemos ter orgulho em ter sido, senão o primeiro, um dos primeiros países europeus a abolir a escravatura? Sim, claro. Mas não devemos esquecer que, na prática, ela só terminou em 1974 e isso é uma vergonha.
Devemos ter orgulho em nos termos libertado de uma ditadura de décadas com uma revolução pacífica e inspiradora da libertação de outros povos, como o brasileiro? Sim, claro. Mas não devemos também ter vergonha de, durante trinta anos, não termos sabido escolher os nossos governantes e exigido deles o cumprimento do seus deveres e promessas?
Devemos ter orgulho em aceitar o desafio e participar na construção de uma europa mais forte? Sim, claro. Mas não devemos ter vergonha do péssimo aproveitamento que fizemos das oportunidades e benesses dadas por essa mesma europa?
Todos os países têm de que se orgulhar e de que se envergonhar. Não há nenhum país sem mácula histórica. Nenhum que tenha um grande feito histórico a que não se possam associar aspectos negativos. É, podíamos dizer por força da constância histórica, uma lei da vida.
A autora do outro blog, provavelmente, não concordará comigo, ou argumentará que algumas coisas que digo são falsas. É um direito que lhe assiste... Nem todos temos de pensar por nós mesmos, ou optar por não seguir ideologias alheias. Nem todos somos obrigados a procurar um caminho próprio, sem alinhamento ou liderança que não a nossa consciência. Alguns preferem ser conduzidos e doutrinados em ideologias ultrapassadas. É um direito que devemos respeitar. Um direito que a própria revolução de Abril de 1974 procurou e conseguiu, até agora, fazer vingar.
Há algo, portanto, em que nos distinguimos à partida. Eu, fruto do que aprendi sobre o 25 de Abril de 1974, sei que, mesmo discordando, devo permitir que os outros tenham a sua opinião. Ela, a conseguir que a sua ideologia vingasse, procuraria reprimir a minha...
Por isso, e mesmo sabendo que alguns gostariam que nunca tivesse ocorrido, eu afirmo aqui, em homenagem aos que arriscaram as vidas para o fazer, contra todas as forças de repressão, em Portugal ou noutro lado qualquer, agora e até ao fim dos meus dias:
25 de Abril, sempre! Fascismo, nunca mais!
Um dos artigos, dos poucos que saiam do âmbito futebolístico, coisa que parece propícia à proliferação desta ideologia, versava na questão do orgulho. Dizia a autora que hoje em dia se perdeu o orgulho em ser português, a não ser quando a selecção nacional de futebol está envolvida numa grande competição, que se ensina às criancinhas que devem ter vergonha da sua nacionalidade, que os descobrimentos estão esquecidos, que o império foi destruído pelos traidores que nos governam que, enfim, dantes é que era bom...
Podia aproveitar a deixa e rebater algumas destas afirmações. Podia, por exemplo, dizer que colocar bandeirinhas à janela quando a selecção joga não é um acto de patriotismo mas de puro embarque numa campanha publicitária, algo cuja relevância e contributo para o progresso do país é, efectivamente, nulo. Podia dizer que nunca ouvi numa escola denegrir os descobrimentos ou mostrar a sua face mais negativa, que já há muito não via tanta preocupação escolar em dar a velha imagem do Portugal heróico e imaculado como agora e que o império já estava moribumdo quando se deu a revolução e, embora tenha sido mal feita, a descolonização era inevitável... Podia, mas não o vou fazer.
Vou antes, para não fugir ao espírito que presidiu a criação deste humilde blog, dar uma visão oblíqua do orgulho nacional.
O orgulho nacional tem duas faces, como qualquer medalha ou moeda. De um lado temos caras, do outro coroas. De um lado temos o orgulho, do outro a vergonha.
Devemos ter orgulho em termos descoberto meio mundo? Sim, claro. Mas não devemo ter também vergonha de ter acompanhado isso com a escravatura?
Devemos ter orgulho em ter sido, senão o primeiro, um dos primeiros países europeus a abolir a escravatura? Sim, claro. Mas não devemos esquecer que, na prática, ela só terminou em 1974 e isso é uma vergonha.
Devemos ter orgulho em nos termos libertado de uma ditadura de décadas com uma revolução pacífica e inspiradora da libertação de outros povos, como o brasileiro? Sim, claro. Mas não devemos também ter vergonha de, durante trinta anos, não termos sabido escolher os nossos governantes e exigido deles o cumprimento do seus deveres e promessas?
Devemos ter orgulho em aceitar o desafio e participar na construção de uma europa mais forte? Sim, claro. Mas não devemos ter vergonha do péssimo aproveitamento que fizemos das oportunidades e benesses dadas por essa mesma europa?
Todos os países têm de que se orgulhar e de que se envergonhar. Não há nenhum país sem mácula histórica. Nenhum que tenha um grande feito histórico a que não se possam associar aspectos negativos. É, podíamos dizer por força da constância histórica, uma lei da vida.
A autora do outro blog, provavelmente, não concordará comigo, ou argumentará que algumas coisas que digo são falsas. É um direito que lhe assiste... Nem todos temos de pensar por nós mesmos, ou optar por não seguir ideologias alheias. Nem todos somos obrigados a procurar um caminho próprio, sem alinhamento ou liderança que não a nossa consciência. Alguns preferem ser conduzidos e doutrinados em ideologias ultrapassadas. É um direito que devemos respeitar. Um direito que a própria revolução de Abril de 1974 procurou e conseguiu, até agora, fazer vingar.
Há algo, portanto, em que nos distinguimos à partida. Eu, fruto do que aprendi sobre o 25 de Abril de 1974, sei que, mesmo discordando, devo permitir que os outros tenham a sua opinião. Ela, a conseguir que a sua ideologia vingasse, procuraria reprimir a minha...
Por isso, e mesmo sabendo que alguns gostariam que nunca tivesse ocorrido, eu afirmo aqui, em homenagem aos que arriscaram as vidas para o fazer, contra todas as forças de repressão, em Portugal ou noutro lado qualquer, agora e até ao fim dos meus dias:
25 de Abril, sempre! Fascismo, nunca mais!
1 comment:
Quando nasci, já o 25 de Abril tinha acontecido. No entanto sei que a Liberdade é, sem duvida, uma "coisa" muito bonita e preciosa. O problema surge quando não há liberdade, mas libertinismo - que é o que acontece muitas vezes nos dias de hoje. As pessoas esquecem-se muitas vezes que a liberdade delas termina onde começa a dos outros. E esse "esquecimento" gera falta de segurança, falta de respeito pelas pessoas e pela propriedade alheia. Para mim, tudo isto é libertinismo, é desprezo pela Liberdade.
E, às vezes, só às vezes, gostava que a liberdade faltasse durante um par de anos para as pessoas voltarem a respeitar a Liberdade dos outros...
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