Há uma semana atrás, dia da realização das eleições presidenciais, iniciei aqui uma reflexão sobre a democracia e os sitemas políticos. Parte dessa reflexão era originada por ter encontrado uma ideia similar à minha do site da Edge, originada pela pergunta anual para 2006.
Há também algum tempo, li um artigo em que se especulava que a continua evolução dos sistemas políticos actuais, a par com o liberalismo económico, iria conduzir à extinção da noção de estado, sendo este substituido por um conjunto de entidades 'privadas' que controlariam aspectos da sociedade pelas quais hoje o estado é responsável.
Esta ideia é tanto mais perturbante quanto podemos ver que cada vez são mais os sinais da sua implementação.
Nas ditas democracias ocidentais, assentes em economias de mercado, o estado tem vindo a entregar muitos dos sectores que eram considerados estratégicos a empresas privadas, em nome de uma suposta maior eficácia e eficiência na sua gestão.
Isto levanta duas questões;
1) O que acontecerá se estas entidades privadas, por exemplo porque a população se manifesta contra um determinado aumento, resolverem privar a população dos serviços que prestam? Não estará a própria noção de liberdade e sobrevivência a ser posta em causa com esta prática?
Imaginemos que a EDP resolvia aumentar de forma brutal o preço da electricidade, que a população de uma determinada cidade se recusava, em massa, a pagar este preço exorbitante e que em consequência, a EDP resolvia suspender o fornecimento de energia eléctrica. De que forma poderia a população defender-se? Quantas pessoas morreriam antes que ocorresse uma revolta popular?
Este poderá parecer um cenário fantástico e impossível, mas não é assim. Se a EDP não detivesse o monopólio da sua área de negócio, as probabilidades seriam menores pois a população procuraria um concorrente, mas este não é o caso e, em Portugal de uma forma particular, a lei da concorrência não funciona pois as empresas já perceberam que podem ganhar todas muito se não se degladiarem entre si. Veja-se o que se passa com a gasolina, por exemplo. Para além disto, basta recordar o recente conflito energético entre a Rússia e a Ucrânia para perceber que não é tão difícil assim acontecer algo do género.
2) Se as empresas privadas prestam um melhor serviço que as estatais, para que precisamos do 'aparelho de estado'? Para quê pagar ordenados à classe política se estes são completamente inúteis?
Na verdade, esta segunda questão já se coloca, mesmo sem a entrega completa de todas as funções do estado a privados. É patente que, cada vez mais, os políticos elegíveis estão ao serviço de entidades privadas e são impulsionados por estas na direcção da eleição. Daí a crescente presença de ex-políticos na direcção de empresas privadas.
Muitos lerão isto e pensarão que não é assim, que as pessoas votam de acordo com a sua consciência e que elas é que controlam quem é eleito ou não. A esses pergunto se é mais fácil dirigir e enganar uma multidão ou uma pessoa só. As populações vivem iludidas e manipuladas das formas mais subtis. Quantas pessoas conhecem que leiam os programas eleitorais antes de votarem? E mesmo que o façam e depois cheguem à conclusão que o programa era uma treta e que não está a ser cumprido, o que podem fazer nessa altura?
'Democracia' significa, etimologicamente, 'poder do povo', mas na prática, o povo não pode nada...
Conclui no próximo post.
Há também algum tempo, li um artigo em que se especulava que a continua evolução dos sistemas políticos actuais, a par com o liberalismo económico, iria conduzir à extinção da noção de estado, sendo este substituido por um conjunto de entidades 'privadas' que controlariam aspectos da sociedade pelas quais hoje o estado é responsável.
Esta ideia é tanto mais perturbante quanto podemos ver que cada vez são mais os sinais da sua implementação.
Nas ditas democracias ocidentais, assentes em economias de mercado, o estado tem vindo a entregar muitos dos sectores que eram considerados estratégicos a empresas privadas, em nome de uma suposta maior eficácia e eficiência na sua gestão.
Isto levanta duas questões;
1) O que acontecerá se estas entidades privadas, por exemplo porque a população se manifesta contra um determinado aumento, resolverem privar a população dos serviços que prestam? Não estará a própria noção de liberdade e sobrevivência a ser posta em causa com esta prática?
Imaginemos que a EDP resolvia aumentar de forma brutal o preço da electricidade, que a população de uma determinada cidade se recusava, em massa, a pagar este preço exorbitante e que em consequência, a EDP resolvia suspender o fornecimento de energia eléctrica. De que forma poderia a população defender-se? Quantas pessoas morreriam antes que ocorresse uma revolta popular?
Este poderá parecer um cenário fantástico e impossível, mas não é assim. Se a EDP não detivesse o monopólio da sua área de negócio, as probabilidades seriam menores pois a população procuraria um concorrente, mas este não é o caso e, em Portugal de uma forma particular, a lei da concorrência não funciona pois as empresas já perceberam que podem ganhar todas muito se não se degladiarem entre si. Veja-se o que se passa com a gasolina, por exemplo. Para além disto, basta recordar o recente conflito energético entre a Rússia e a Ucrânia para perceber que não é tão difícil assim acontecer algo do género.
2) Se as empresas privadas prestam um melhor serviço que as estatais, para que precisamos do 'aparelho de estado'? Para quê pagar ordenados à classe política se estes são completamente inúteis?
Na verdade, esta segunda questão já se coloca, mesmo sem a entrega completa de todas as funções do estado a privados. É patente que, cada vez mais, os políticos elegíveis estão ao serviço de entidades privadas e são impulsionados por estas na direcção da eleição. Daí a crescente presença de ex-políticos na direcção de empresas privadas.
Muitos lerão isto e pensarão que não é assim, que as pessoas votam de acordo com a sua consciência e que elas é que controlam quem é eleito ou não. A esses pergunto se é mais fácil dirigir e enganar uma multidão ou uma pessoa só. As populações vivem iludidas e manipuladas das formas mais subtis. Quantas pessoas conhecem que leiam os programas eleitorais antes de votarem? E mesmo que o façam e depois cheguem à conclusão que o programa era uma treta e que não está a ser cumprido, o que podem fazer nessa altura?
'Democracia' significa, etimologicamente, 'poder do povo', mas na prática, o povo não pode nada...
Conclui no próximo post.