Sunday, January 29, 2006

O fim da democracia - Parte 2 -

Há uma semana atrás, dia da realização das eleições presidenciais, iniciei aqui uma reflexão sobre a democracia e os sitemas políticos. Parte dessa reflexão era originada por ter encontrado uma ideia similar à minha do site da Edge, originada pela pergunta anual para 2006.

Há também algum tempo, li um artigo em que se especulava que a continua evolução dos sistemas políticos actuais, a par com o liberalismo económico, iria conduzir à extinção da noção de estado, sendo este substituido por um conjunto de entidades 'privadas' que controlariam aspectos da sociedade pelas quais hoje o estado é responsável.
Esta ideia é tanto mais perturbante quanto podemos ver que cada vez são mais os sinais da sua implementação.
Nas ditas democracias ocidentais, assentes em economias de mercado, o estado tem vindo a entregar muitos dos sectores que eram considerados estratégicos a empresas privadas, em nome de uma suposta maior eficácia e eficiência na sua gestão.
Isto levanta duas questões;

1) O que acontecerá se estas entidades privadas, por exemplo porque a população se manifesta contra um determinado aumento, resolverem privar a população dos serviços que prestam? Não estará a própria noção de liberdade e sobrevivência a ser posta em causa com esta prática?

Imaginemos que a EDP resolvia aumentar de forma brutal o preço da electricidade, que a população de uma determinada cidade se recusava, em massa, a pagar este preço exorbitante e que em consequência, a EDP resolvia suspender o fornecimento de energia eléctrica. De que forma poderia a população defender-se? Quantas pessoas morreriam antes que ocorresse uma revolta popular?
Este poderá parecer um cenário fantástico e impossível, mas não é assim. Se a EDP não detivesse o monopólio da sua área de negócio, as probabilidades seriam menores pois a população procuraria um concorrente, mas este não é o caso e, em Portugal de uma forma particular, a lei da concorrência não funciona pois as empresas já perceberam que podem ganhar todas muito se não se degladiarem entre si. Veja-se o que se passa com a gasolina, por exemplo. Para além disto, basta recordar o recente conflito energético entre a Rússia e a Ucrânia para perceber que não é tão difícil assim acontecer algo do género.

2) Se as empresas privadas prestam um melhor serviço que as estatais, para que precisamos do 'aparelho de estado'? Para quê pagar ordenados à classe política se estes são completamente inúteis?

Na verdade, esta segunda questão já se coloca, mesmo sem a entrega completa de todas as funções do estado a privados. É patente que, cada vez mais, os políticos elegíveis estão ao serviço de entidades privadas e são impulsionados por estas na direcção da eleição. Daí a crescente presença de ex-políticos na direcção de empresas privadas.
Muitos lerão isto e pensarão que não é assim, que as pessoas votam de acordo com a sua consciência e que elas é que controlam quem é eleito ou não. A esses pergunto se é mais fácil dirigir e enganar uma multidão ou uma pessoa só. As populações vivem iludidas e manipuladas das formas mais subtis. Quantas pessoas conhecem que leiam os programas eleitorais antes de votarem? E mesmo que o façam e depois cheguem à conclusão que o programa era uma treta e que não está a ser cumprido, o que podem fazer nessa altura?

'Democracia' significa, etimologicamente, 'poder do povo', mas na prática, o povo não pode nada...

Conclui no próximo post.

Sunday, January 22, 2006

O fim da democracia

Hoje parece-me o dia ideal para começar um post sobre a democracia. Esta será só a primeira parte, cuja génese está intimamnete relacionada com uma ideia que alimento há bastante tempo e que vi reflectida, em parte, na resposta dada por Haim Harari à pergunta anual do site Edge , que este ano é, 'Qual a sua ideia mais perigosa?'. Essa ideia é a de que a Democracia pode ter chegado, enquanto sistema político, ao esgotamento. A resposta de Haim Harari pode ser lida seguindo o link abaixo:

Página com a resposta de Haim Harari

Para mim, todos os sistemas políticos têm um período de vida, e o seu fim apresenta-se quando a generalidade da população se apercebe que, aquilo que parecia uma excelente ideia e a aparente solução para a gestão dos povos foi, mais uma vez, corrompido e deturpado. Isto é inevitável enquanto os sistemas políticos assentarem no exercício do poder de um ser humano sobre outro. O poder corrompe, invariavel, inevitavel e inexoravelmente.
Isto aconteceu com todos os sistemas políticos no passado e vai acontecer com a democracia representativa, tal como a conhecemos.
Aconteceu com o despotismo, com a monarquia feudal e com a monarquia absolutista, acontece neste momento com as monarquias constitucionalistas, aconteceu com a ideia de república, com ditaduras assentes na ideologia fascista e com as assentes no comunismo, acontecerá com a democracia representativa.
Em todos os casos passados, aconteceu porque os homens que exerciam o poder corromperam a ideia original a tal ponto que esta acabou por servir apenas os interesses de alguns em deterimento da maioria. Costumo dizer que a melhor forma de destruir uma excelente ideia é torná-la numa instituição, precisamente porque a vasta maioria dos sistemas políticos que a humanidade conheceu aparentemente assentava em bons princípios e tinha origem em óptimas ideias para a procura de um sistema que permitisse aos homens viver em sociedade.

A grande questão que coloco, no seguimento desta ideia, é se estaremos preparados para começar a procurar um sistema diferente. Falar nos defeitos da democracia tornou-se tabu. Para muitos o sistema actual é o melhor que é possível atingir... Dizem alguns que é preciso ser pragmático e aceitar que não poderemos ir mais além. Eu acho que o pragmatismo é só uma forma diferente de derrotismo... É a forma elegante de ser cobarde e desistir de lutar pela perfeição.

Para continuar...

Friday, January 06, 2006

A morte do silêncio num minuto de aplausos

Peço-lhe, caro leitor, que no fim de ler este parágrafo, caso a sua gentileza e paciência para com este pobre escriba o façam chegar lá, guarde um minuto de silêncio. Não será fácil pois existirá ruído com certeza. O trabalhar do computador onde lê este blog, talvez os sons que lhe chegam da rua, quem sabe até a música que ouve enquanto se passeia pela informação disponível na internet. Não será fácil mas peço-lhe que tente, agora, sentir o peso de um minuto de silêncio.






Se o conseguiu, poderá melhor apreciar o que pretendo transmitir com o post de hoje.
Recentemente verifico a ocorrência de um fenómeno na sociedade que se prende com o silêncio. O desrespeito pelo mesmo quando se pede que seja guardado um minuto de silêncio em memória de alguém ou para recordar um acontecimento trágico. Já assisti, a pelo menos duas ocasiões em que o minuto de silêncio foi preenchido por aplausos. Uma das quais num acontecimento desportivo onde estavam presentes estranjeiros que se entreolhavam chocados e surpreendidos pela atitude do público português em aplaudir durante aquele período. Alguns chegaram mesmo a assobiar e apupar essa atitude.
A ideia do minuto de silêncio é, em primeiro lugar, demonstrar pesar pela perda e respeito pela memória dos que nos deixaram, normalmente em situações trágicas. Em segundo pretende-se que as pessoas meditem durante esse período em tudo aquilo que pode significar para elas a morte de outros seres humanos e, consequentemente, em tomar consciência de que, inevitavelmente, chegará a sua vez.
Este silêncio permite a introspecção. Permite apreciar o peso dos sentimentos.
Da última vez em que vi o minuto de silêncio assim violado, as pessoas sorriam enquanto aplaudiam e conversavam com quem estava ao seu lado... Todo o significado da homenagem estava perdido para elas e portanto, a própria homenagem ficava vazia do mesmo.
Não tenho a certeza se em todas as culturas o silêncio tem o mesmo significado, mas sei que se observarmos uma criança, ainda não deformada pelas modas e imposições da sociedade, notaremos que os aplausos são manifestação de alegria e o silêncio significa abstracção, concentração e em caso de existirem motivos, tristeza.
Tive já também o privilégio de estar em locais onde o silêncio reina. No topo das montanhas do Gerês, podemos sentir a paz e a tranquilidade que a quietude da natureza traz. Debaixo de água, a beleza da vida marinha goza-se mergulhado num mundo em que o nosso ouvir é um sentido quase inútil.

Não sei o que motiva esta atitude. Talvez o povo português esteja já tão triste e desiludido que não suporte os momentos em que se espera que se sinta ainda mais assim... Talvez seja só uma moda, estúpida como todas as modas. Um querer ser diferente só por ser diferente...
Seja como for, o silêncio, com todos os seus significados e beleza está a fugir-nos e com esta atitude, poderemos estar a matá-lo.
Espero que o minuto de menor ruído que lhe pedi antes tenha servido para o sensibilizar. E se não foi o caso, ao menos que sirva de homenagem ao moribundo silêncio...