Monday, September 10, 2007

Casual friday

Tenho estado arredado deste blog. Não vou justificar porquê porque não o poderia fazer, não sabendo eu próprio as razões, e porque, afinal, não tenho que o fazer.
Por isso, pedindo apenas desculpas aos meus (poucos) leitores se acaso lhe sentiram a falta, vou apenas prosseguir com a publicação de mais este post.


A ideia para este texto surgiu-me ao falar com dois amigos acerca das casual fridays. Na minha profissão não me é exigido usar fato e gravata. Já fui a entrevistas em que me mencionaram que tal seria uma necessidade e isso contribuiu de forma cabal para que eu recusasse o lugar. O valor que me propunham não era suficientemente elevado para pagar o incómodo de andar uniformizado com um pedaço de pano absolutamente inútil amarrado ao pescoço. Para isso já me chegou o serviço militar obrigatório.

Os meus amigos estão habituados à situação e medem, em parte, a qualidade dos lugares em que eles e outros trabalham pela permissividade das casual fridays em cada lugar. Em alguns sítios a prática limita-se a tolerar que não se tragam gravatas para o trabalho, noutros até aceitam que se usem calças de ganga, vejam lá!
Perante esta ideia perguntei:

- Mas então às sextas vocês não têm que trabalhar tanto como nos outros dias?

Pareceu-me lógico que a exigência de um determinado tipo de indumentária se prendesse com a produtividade, ou com a segurança, mas o trabalho deles não envolve propriamente riscos de lesões físicas por acidente de trabalho portanto só podia ser por causa da produtividade. De algum modo que me escapava, o fato e a gravata tornavam-nos, a eles, mais produtivos. Sem tal indumentária o seu trabalho seria prejudicado.

Responderam-me que não. Que às vezes até tinham que trabalhar mais. Não me puderam explicar depois qual era a justificação para que à sexta não tivessem que usar fato e gravata. Parece que tem algo a ver com uma teoria de gestão de recursos humanos que procura melhorar o ambiente nos escritórios desta forma. Se tal fosse verdade seria lógico estender a prática aos outros dias, parece-me evidente. Mas não... é só à sexta feira.
Creio que, na verdade, é apenas mais uma espécie de cenoura que faz os cavalos caminhar... Um pequeno doce dado aos escravos corporativos para que não se rebelem. Como dizia Thoreau, "Cuidado com as empresas que exigem roupas novas."
Também há uma explicação para esta prática no interesse de certas empresas em impor os seu produtos no ambiente de escritório. Consta-se que algumas destas empresas terão, durante os anos 70 do século vinte, apoiado uma campanha maciça para a implementação da prática.

Depois pus-me a pensar na utilidade das gravatas. Nas pessoas que as usam e no efeito que pretendem atingir com elas.

Quanto à utilidade, é nula. Ainda que na sua origem mais remota se possa associar à prática das legiões romanas
de usar um pedaço de tecido no pescoço para aparar o suor ou aquecer o pescoço em longas marchas, a gravata moderna tem a sua origem numa prática meramente decorativa de um regimento de cavalaria Croata que foi apresentado ao rei Louis XIV de França usando pedaços coloridos de pano ao pescoço. O rei, conhecido pela sua futilidade e extrema vaidade, achou piada à coisa (ou teria sido aos croatas?) e lançou a moda. O termo gravata vem de cravatte que por sua vez vem de croat. Daí passou para a Inglaterra e espalhou-se pelo mundo. Chegaram a usar-se acumulações de pano tais em redor do pescoço que não era possível aos homens mover a cabeça para olhar para o lado, tendo para isso que rodar todo o corpo.
Daqui vem mais um ponto para a defesa de que a moda contribui muito pouco para o progresso da humanidade... mas isso é outra história.
Há até uma série de contra indicações médicas ao uso da gravata. Em certas profissões o uso de gravata é desaconselhado devido à possibilidade de estrangulamento. De notar que aqui se inclui a carreira policial e outras onde o confronto físico pode ocorrer. Existe também uma série de riscos associada à constrição vascular que pode provocar danos na retina. Pessoas com glaucoma são particularmente sensíveis...
Curiosamente um dos campos em que o uso de gravatas parece ser mais prejudicial é o médico. As gravatas são uma grave fonte de contaminações cruzadas nos hospitais por entrarem em contacto com vários pacientes durante os exames médicos.

Quanto aos efeitos, é outra história.
Segundo me parece tornou-se mais ou menos comum associar o uso da gravata com profissionalismo e seriedade. Isto poderá advir da função de separador social que a cravatte terá tido no seu início real. A verdade é que os humanos tendem a procurar distinguir-se e discriminar-se em função da sua riqueza e posses e a roupa foi sempre uma forma de potenciar essa discriminação.
Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que o profissionalismo não depende da indumentária. Aliás, a minha experiência é de que quanto mais aperaltados e preocupados com a imagem são os trabalhadores, menos competentes são... os recursos não dão para tudo e ou bem que nos preocupamos em transmitir uma imagem, ou bem que trabalhamos.
E se pensarmos bem, as profissões mais habitualmente associadas ao uso de gravata são aquelas que nos merecem menos confiança... Não usam a maioria dos políticos gravata? E quantos de nós somos ainda tão ingénuos que os cremos sérios?

Tuesday, April 24, 2007

A Arte da Não-Engenharia

Engenho e Arte foram há muito ligados e deram frutos, mas não foram os únicos.



Há uma outra forma de arte bastarda que, sendo estéril e não podendo dar frutos tão nobres, resolveu criar uma forma corrompida de engenho. Uma Não-Engenharia, por assim dizer.

Nada disto seria grave se não nos afectasse, mas começamos a vislumbrar que estamos a ser governados por um Não-Engenheiro, filho e amante da bastarda arte da política.



A verdade é que, tenha ou não concluído os estudos, esteja ou não inscrito na ordem, o primeiro ministro nunca foi Engenheiro. Um Engenheiro, um verdadeiro Engenheiro, não precisa de ter acabado um curso de engenharia, não precisa de estar inscrito na ordem, precisa, isso sim, de trabalhar como engenheiro. Tudo o resto é mera burocracia e política.



De toda esta trapalhada à volta do curso do primeiro ministro há algumas coisas que poderiam ser bem analisadas e vistas. Toda a gente sabe que os políticos são trafulhas. Toda a gente sabe que se aproveitam da sua condição e influência. Isso é o banal e o diário e quem tinha ideia de que este primeiro ministro era honesto e incorrupto tem uma dose de ingenuidade que deve estimar pois isso permite-lhe ver o mundo e a vida de uma forma bem mais rosada do que, de facto, são.



Que importa que o Sr. Sócrates tenha ou não concluído o curso? Ele nunca trabalhou na vida. Passou da Universidade para a carreira política e por ali tem andado, gastando o que os outros produzem de forma absurda. Essa é a sua história de vida. Para tal, não é necessário engenho... Basta algum domínio da bastarda arte.



Aquilo que se poderia ver e aproveitar para corrigir partindo desta história seria, por exemplo, o estado lastimoso e a rebaldaria que vão pelo ensino superior privado em Portugal. Desde a quantidade astronómica de cursos inúteis e absurdos às ligações destas instituições ao mundo do crime. Poder-se-ia tentar que estas instituições vissem o seu número reduzido àquelas que, realmente, formam elementos válidos da sociedade e transmitem conhecimentos úteis. Já seria hora de encerrar muitos dos estabelecimentos que não passam de negociatas e fachadas. E são tantos...



Outra coisa que se podia aproveitar para fazer era rever a forma como se regula e permite o exercício de certas profissões. Fará algum sentido toda esta panóplia de ordens que vai surgindo por aí?

Que é a ordem dos engenheiros senão um lobby instituído, uma espécie de sindicato e mais uma estrutura que dá muito dinheiro a ganhar a tantos que produzem tão pouco?

Porque será que alguém tem que estar inscrito na ordem para poder exercer a profissão de engenheiro? Não envergonha o estado que os cursos que ele ministra e valida como formadores de engenheiros sejam sujeitos a uma aprovação posterior por uma instituição privada? Não será esta obrigatoriedade de inscrição na ordem um assumir de incompetência do estado enquanto formador?

E o processo de validação será assim tão válido e garantia de competência?

Quando eu comecei a estudar, o curso que frequentava não era reconhecido pela ordem dos engenheiros. Agora, com a implementação de Bolonha, já é. Mas quase nada mudou no conteúdo programático... apenas alterações de horários, designações das disciplinas e alguns procedimentos, francamente mais burocráticos e absurdos que anteriormente. Com estas pequenas alterações estéticas o curso passou a ser reconhecido pela ordem com direito a inscrição automática e directa. Afinal, que garantias dá a ordem de que os seus membros são competentes? Nenhumas...

Os meus clientes e os de outros como eu sim. Esses podem atestar a qualidade (ou falta dela, se for o caso) do meu trabalho. É o mercado que diz quem é, verdadeiramente, um Engenheiro.



Tudo o resto é papelada. E poucos há que manipulem papel com a mesma destreza e argúcia que os praticantes da arte bastarda...





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Thursday, February 08, 2007

Insólito

É verdade... sucedeu-me algo insólito. Por incrível que pareça, por mais contra natura que tal facto seja, concordei com o primeiro ministro.
Eu conto-vos como tal pôde suceder.

Tudo começou com as declarações do ministro da economia na recente visita à China. Disse o senhor que Portugal tinha vantagens competitivas por ter salários mais baixos que a média europeia. Isto num país conhecido por ter uma mão de obra baratíssima que é responsável pela implantação aí de muitas empresas estrangeiras. Foi uma parvoíce... Mas na verdade, que diria o homem para mostrar alguma razão aos chineses para investirem em Portugal? A verdade é que Portugal não tem nenhuma vantagem sobre a China que esta não encontre ainda melhor num outro país da União Europeia. Naturalmente que, sendo co-responsável pelo estado lastimoso do nível de vida dos portugueses, ele só se lembrou que os desgraçados que ele governa ganham pouco.

Naturalmente que esta parvoíce foi aproveitada pelos partidos da oposição, mesmo por aqueles que são também co-responsáveis pelo estado da economia e dos salários em Portugal.

Foi aqui que o primeiro ministro resolveu intervir. Não sei porquê... seria mais inteligente deixar que a parvoíce do ministro da economia passasse da memória. Ao menos assim o erro seria só de um elemento do governo e não de dois. Mas enfim... ele resolveu intervir.

E lá veio, metendo os pés pelas mãos e dando desculpas atabalhoadas. No fim, espremendo toda a balbuciada desculpa, o que afinal o ministro da economia queria dizer, mas não disse, era que a mão de obra qualificada é que era mal paga em Portugal. Não percebo em que isto seja bom, mas enfim... O que podemos deduzir das palavras do primeiro ministro, em conjunto com as do ministro da economia é que a mão de obra bem paga em Portugal é a não qualificada.

Pus-me a pensar um pouco nesta desculpa. É um desperdício de tempo, eu sei, pensar nas palavras dos políticos, mas foi numa altura em que estava desocupado, pois tinha-me esquecido de levar um livro para a casa de banho...

Lembrei-me então que os políticos em Portugal ganham bastante mais que a média dos portugueses. Que o salário médio em Portugal ronda os 700 euros. Foi então que concordei com o primeiro ministro.

Os políticos são bem pagos, por isso, como o próprio primeiro ministro sugere na sua atabalhoada defesa do indefensável ministro da economia, são mão de obra desqualificada. Já desconfiava...