Saturday, November 25, 2006

Conciliador e cooperante ou inoperante, conivente?

Li na edição de segunda feira passada, no jornal gratuito metro, uma apreciação positiva à recente entrevista e, mais importante, à actuação institucional do presidente da república.

Dizia o cronista que esta atitude do presidente punha à frente dos interesses pessoais os interesses do país e que era algo que os portugueses agradeciam.

Lamento desapontá-lo, mas está enganado na sua generalização. Não se preocupe, é um problema comum nas generalizações a que hoje em dia tanto se gosta de recorrer no dito jornalismo. Basta que umas estatísticas, muitas vezes com uma amostragem ridícula, indiquem uma conclusão qualquer que logo se dispara para a generalização. Pois, eu não agradeço esta atitude a que chama de conciliadora e cooperante. Na minha opinião trata-se de uma atitude de inoperância e conivência com medidas danosas para os portugueses e para Portugal.

Em primeiro lugar, esta atitude é conivente pois pactua com a quebra de compromissos eleitorais e programáticos que o partido agora no governo fez aos portugueses. É uma atitude de tolerância de uma aldrabice, um logro, uma fraude é, nessa perspectiva, uma atitude cúmplice.

É inoperante ou hipócrita. Ainda há bem pouco tempo este presidente da república chamava a atenção para a necessidade do combate à exclusão social daqueles que, por um motivo ou outro, são mais desfavorecidos na sociedade. Ora este governo prepara-se para agravar a carga fiscal aos deficientes. Diga-me, caro cronista, em que medida é que tal atitude contribui para a inclusão social dos deficientes, se for capaz. Diga-me se defender a inclusão social em discursos e não actuar em sua defesa nas atitudes não poderá, mesmo na melhor das hipóteses ser considerado um hipocrisia e, na pior, inoperância ou incompetência.

Poderíamos até ser um pouco mais críticos e tentar lembrar quais as medidas que o actual presidente tomou enquanto primeiro ministro para combater a exclusão social. Será que, após tal análise, reconheceríamos a este homem estatura moral para exigir qualquer tipo de acção neste sentido tendo em conta o que teria feito enquanto detentor do poder?

Entretanto, um grupo de empresários criou um fundo para combater o insucesso escolar, como medida para o combate à exclusão social. É uma atitude louvável, acima de qualquer crítica, não há dúvida quanto a isso. O que é triste é que tenham que ser empresário privados a fazê-lo. O que é triste é que tenham o empresários que se substituir ao ministério da educação que, por sua vez, tudo faz para ajudar ao insucesso escolar e à insatisfação tanto de alunos como de professores. Talvez a grande vantagem desta atitude não seja combater a exclusão. Talvez o seu maior mérito seja fazer-nos perceber que o dinheiro dos nossos impostos serve cada vez para menos além de pagar os salários à classe política que é, cada vez mais, inútil.

Este presidente da república não é muito diferente dos anteriores. Durante o primeiro mandato optam por um perfil discreto e cooperante com o governo por forma a terem menos dificuldades em garantir a obtenção do segundo mandato pois os partidos que governam sob a sua alçada, quer sejam da mesma cor ou não, não lhe farão grande combate nas eleições seguintes. Talvez apresentem um daqueles candidatos suicida que aparecem à frente de uma corrida que não poderão nunca vencer apenas para que o partido não esteja completamente ausente nas eleições. Aliás, este senhor que actualmente ocupa a posição de presidente da república fez exactamente isso com um seu correlegionário e ex-ministro da defesa.

Depois, os presidentes preocupam-se em definir um estilo que lhes venha a ser atribuído e, quem sabe, mencionado de quando em vez como algo original que eles próprios desenvolveram. Admira-me até que não recorram a patentes neste campo, afinal, o patentear de tudo e mais alguma coisa está na moda…

Nos últimos presidentes tivemos o que criou as presidências abertas, ou seja, passeios gastronómicos e acções de campanha e os constantes ‘porque’ nos discursos mais inflamados. Depois o presidente do ‘é preciso’ e que fazia nada, recorrendo também aos passeios gastronómicos, agora chamados de semanas temáticas. Este é o da responsabilização da sociedade civil, o que sacode a água do capote e atira para todos os outros os problemas que, enquanto primeiro-ministro, não resolveu e, em alguns casos criou. Para este presidente a responsabilidade da resolução dos problemas e da sua existência é da sociedade civil, nunca da classe política de já quase lendária (se ao fosse mesmo lendária e não real) incompetência que governa Portugal há centenas de anos.

Quem tem culpa de os incêndios devastarem hectares e hectares de floresta todos os anos não é a classe política que, ano após ano não faz nada excepto operações de estética e reorganização inconsequente dos serviços de protecção civil e que, anos após ano recusa, teimosamente, a aquisição de meios adequados ao combate eficaz dos fogos. A culpa, para este presidente, é de quem faz piqueniques e lança foguetes.


A culpa do estado lastimoso dos serviços de saúde em Portugal não é da classe política e da sua incapacidade para enfrentar interesses e tomar uma atitude definitiva e concertada nesta área, é das pessoas que não se alimentam bem e não cuidam da saúde. Os portugueses ficam doentes demais.


A responsabilidade de combater a exclusão social não é da classe política, é da sociedade civil. Não é por culpa das más governações que os portugueses têm salários baixos e cargas fiscais altas, não é por culpa de presidentes que deixam aprovar sem remoque um orçamento que promove a exclusão social, nem pensar nisso, é a sociedade civil que tem responsabilidade em erradicar este problema, mesmo que a classe política tudo faça para que tal se agrave, algumas vezes, e nada faça para que se atenue, nunca.

Este presidente é inoperante e conivente com um governo mentiroso e incompetente. Este presidente coopera com uma classe política corrupta e mal intencionada.


Talvez o cronista que agradece esta atitude discorde de mim, talvez ele até concorde e não o possa dizer por forma a manter o seu estatuto de opinion maker e o seu emprego como jornalista, mas eu não tenho que o fazer e não lhe admito que fale por mim. Eu não agradeço nem concordo com as atitudes deste presidente e, como sou português, desminto aqui, assim, a sua generalização.

3 comments:

AS said...

Welcome back! :)
Sobre o post... bem, tenho que admitir que acabo por não concordar contigo nem com o cronista.
Acho que o PR devia proteger mais os interesses dos portugueses, mas por outro lado será que devia interferir directamente na governação do nosso país?
Não creio que a maneira de pensar do PR seja assim tão diferente do PM, acho que são "farinha do mesmo saco"... por isso, acredito que o PR apoie o PM porque concorda realmente com ele!

Barba Ruiva said...

Mas eu não duvido que eles concordem. Isso está patente nas suas atitudes. O problema é que aquilo que o PR diz não é concordante com o que faz, ou melhor, deixa fazer.
Quanto a interferir com a governação, isso leva-me a outro post em que colocava em causa a existência da figura de PR... se ele não tem essa função de regulador e vigilante, para que serve?

AS said...

Para gastar dinheiro dos contribuintes? 0:)