Mais um sábado a trabalhar no escritório. Como era aborrecido ter de deixar o conforto da cama, a possibilidade de um dia de preguiça ou simples indolência, para cumprir as tarefas repetitivas que já se repetiam tantas vezes durante os outros dias da semana e que, apesar da constante repetição, mesmo assim, de modo misterioso,arranjavam forma de se acumular até este ponto.
Após o almoço deixara o marido com ar desolado em frente do televisor, percorrendo canais
sucessivos sem encontrar nada que lhe fixasse a atenção. Prometera não voltar muito tarde ao beijá-lo em despedida, mas até a ela a promessa soara algo oca, talvez pela consciência do volume de trabalho que a esperava.
E aqui estava, aborrecida, frente ao monitor de computador, já as quatro da tarde se haviam sumido num instante, como fazem todas as horas apesar de a nós nos parecer que algumas se
vão mais depressa que as outras consoante nos agradam mais ou menos. Tal como um alimento a vida parece-nos sempre a menos quando nos agrada e a mais quando não, como comprova cada criança que pede mais um pedaço de chocolate e reclama de mais uma colher de sopa.
Por lembrar chocolate agora se lhe saliva a boca e talvez por que tal guloseima seja,
segundo se diz, afrodisíaca, se lhe escapa a mente para as delícias que procurará obter do marido ao chegar a casa. Divaga um pouco do trabalho, os olhos percorrem a sala que, apesar dos cuidados diários da equipa de limpeza lhe parece sempre suja de trabalho, que essa é coisa que, mesmo nas mais higiénicas profissões, sempre suja.
Abana a cabeça e volta a concentrar a atenção no monitor. Mais logo terá possibilidade de
exercitar a imaginação, nessa altura com o benefício da companhia do amado.
Algum tempo passa e um movimento lhe capta a atenção. À porta da sala algo abana
ritmicamente, algo amarelo. Olha agora com a atenção fixa e apercebe-se que são flores... Um pequeno, mas engraçado, ramo de flores está a abanar-se ao longo da frincha que deixou aberta ao entrar.
Levanta-se e avança para lá, com um sorriso nos lábios, ainda incerto pela surpresa.
Ele ali está, o marido, sorrindo como sempre faz quando a tenta fazer feliz e sempre parecendo um rapazote atrapalhado pelas primeiras tentativas de cortejar uma rapariga. E o dela abre-se definitivamente, como sempre faz em resposta ao dele.
- O que fazes aqui?
- Estava farto de estar em casa. Vim fazer-te companhia. Já agora aproveito e trabalho também um pouco. – Responde ele e levanta o que traz na outra mão, o seu portátil. Depois estende o ramo de amores-perfeitos amarelos, as preferidas dela, abrindo ainda mais aquele sorriso malandro, agora menosinseguro por ver que ela não ficou aborrecida.
- És tolo. – Diz ela enquanto pega no ramo que depois leva às narinas e inspira profundamente. - São lindas. Obrigada.
- Não tenho direito a um beijo?
Ela inclina a cabeça ligeiramente e coloca uma expressão atrevida no rosto.
- Não sei...
Ele puxa-a para si e beija-a. Primeiro ao de leve e depois mais profundamente. Ela responde ao beijo mas interrompe-o pouco depois, olhando para os dois lados do corredor e dizendo depois, quase de forma conspiradora:
- Entra.
Ele entra, ainda abraçando-a pela cintura. Beijam-se de novo, as línguas já sedentas da
companhia uma da outra, como o resto dos seus corpos estava, quase sem que eles se apercebessem disso. Já ela pousou o ramo sobre uma das mesas e ele a mala do portátil e se abraçam mais estreitamente, as mãos dele agarrando-a, sôfregas.
Ela acaba por lhe colocar as mão no peito, afastando-o um pouco.
- Tenho que trabalhar.
Ele faz má cara, quase um cachorrinho maltratado pela pequena dona que adora, mas aceita a realidade.
- Onde posso ligar isto? – Aponta o portátil.
- Podes ir para a sala de reuniões, afirma ela. Lá tens internet e tudo.
- OK.
Beijam-se rapidamente de novo, ela toma o ramo e conduz o marido para a sala de reuniões onde ele se instala numa das cadeiras sem braços que aí estão dispostas ao redor da mesa
comprida. Faz as ligações de que necessita e senta-se, pronto para tomar ele conta do trabalho que lhe falta. Ela baixa-se e beija-o de novo.
- Obrigada por teres vindo. Adoro-te.
Olha-o nos olhos que brilham de satisfação e volta por sua vez para o local de trabalho.
Ela pode observá-lo pelos vidros, que separam a sala de reuniões do resto do espaço de
trabalho daquela secção, e ouvir o som do teclar que ele faz ao escrever pela
porta que ficou aberta.
Algumas horas se passam.
O som do teclar dele já se esgotou há algum tempo quando ela se apercebe disso. Está cansada do trabalho que foi fazendo. Coloca uma mão atrás do pescoço e massaja-o, tentando eliminar alguma da fadiga da posição. Olha o ramo pousado ao lado do teclado, sorri. O marido que está ainda com o olhar fixo no ecrã, mas não parece estar agora a trabalhar.
Levanta-se e vai até à porta da sala de reuniões e verifica que ele joga.
- Isto é que tu trabalhas? – Diz sorrindo.
- É muito importante... - Diz ele olhando-a. – Nem imaginas o que custa.
- Deixa-me experimentar.
- Está bem. Vê lá se consegues bater o meu recorde.
Ele afasta a cadeira um pouco da mesa para que ela se possa sentar no seu colo e ter acesso
ao rato.
Ela começa a jogar e em pouco tempo está embrenhada naquele mover e pressionar de botões.
Ele observa as jogadas dela, certo de que o seu recorde será batido em breve.
Encosta a cabeça ao ombro dela e inala o perfume dos seus cabelos. Percorre-lhe as costas com uma mão, percebendo o cansaço que ali se manifesta. Massaja-a lentamente, centrando os movimentos circulares e a pressão dos dedos mais próximo do pescoço dela.
A certa altura ela deita a cabeça para trás. – É bom. Continua... – diz.
Ele obedece, solícito, mas não sem antes aproveitar a posição para a beijar de novo.
– Está bem.
O pescoço já não está tão rígido e as costas estão mais maleáveis sob a camisola leve que ela veste. No final de um dos movimentos descendentes ao longo das costas ele pausa
ligeiramente e depois sobe enfiando as mãos debaixo da camisola.
– Assim é melhor...
Ela não responde. Continua, ou faz de conta, concentrada no jogo.
Ele massaja-a ainda mais um pouco, mas os movimentos para os lados são cada vez maiores e em
breve passam, ora uma, ora outra mão a abarcar também a frente do corpo dela e roçando a base dos peitos, a forma rendada do soutien.
A mão esquerda acaba por tomar o peito dela dentro de si, enchendo-se e apertando um pouco. A direita aperta os colchetes, soltando-os e abrindo assim o soutien. Rápida se dirige de novo para a frente e agora já sem o impedimento do tecido, enche-se por sua vez com o outro peito.
Ele agarra-a assim e puxa-a um pouco mais para si.
- Estás a desconcentrar-me...
Ela sorri ao dize-lo. Malandra e deliciada ao mesmo tempo.
- Não quero que batas o meu recorde. Diz ele mesmo antes de a beijar. A língua percorrendo os lábios entreabertos lentamente e depois penetrando-os, procurando a dela.
Ela interrompe o beijo e volta, sem grande convicção, ao jogo.
- Vou conseguir na mesma.
Ele sorri. Mergulha a face nos cabelos dela, inspira profundamente enquanto deixa que os
mamilos dela lhe escapem entre o indicador e o polegar, massajando-os tão suavemente que cada grau da rigidez crescente destes lhe é transmitida com uma nitidez incrível.
Afastando os cabelos para o lado, ele beija-lhe a base do pescoço, soltando por vezes a
língua levemente sobre a pele, quase só tocando os pequeníssimos e suaves pêlos, com um cuidado experimentado em não deixar demasiada saliva.
A pele arrepia-se e ele sabe que esse é o momento de deixar que uma das mão lhe caia
para a coxa e deslize sobre o fino tecido da saia, puxando-a aos poucos para cima em movimentos sucessivos. A outra mão puxa agora a camisola para cima e a boca dele pode percorrer uma maior distância sobre as costas dela, a respiração quente dele provocando novos arrepios na pele dela. Depois levanta também a parte da frente e roda-a um pouco para o lado para que lhe possa chegar ao peito com a boca.
Ela coloca-lhe uma mão na nuca e acaricia-lhe o cabelo com as pontas dos dedos. Depois
empurra-lhe um pouco a cabeça quando sente o mamilo envolto pelos lábios dele e a língua a dardejar rapidamente. Ele percebe a indicação e sabe que deve tomar mais do peito dela na boca, sugando, como fez no peito da mãe enquanto recém nascido, recebendo agora uma nutrição distinta, surpreendentemente menos física e primordial na sua natureza, quase um fluir de essência etérea entre eles, alimentando-os aos dois e não apenas a um.
A mão dele já desliza sobre a pele exposta da coxa dela, detendo-se de forma aliciadora pouco antes das calcinhas algumas vezes, antes de se permitir sentir o calor debaixo
do tecido. Mesmo então não passa para debaixo do pano. Percorre-o, pressionado lentamente, afastando estes outros lábios, tão diferentes fisicamente mas tão iguais na fome ou sede.
Só quando o calor e a humidade são muitos, e já a outra mão se encarrega de acariciar a
outra coxa, deixando o peito ainda ao cuidado da boca, a mão sobe ao longo do tecido e desce já debaixo do mesmo, os dedos explorando a selva de pelos que protege aquele local, qual templo oculto, onde um dos dedos penetra agora como um explorador maravilhado, mesmo que a vista já não seja nova.
Da boca dela que agora tocava uma das orelhas dele solta-se um brevíssimo suspiro acompanhado de um gemido baixo e expressivo.
Durante mais algum tempo ele lhe acaricia o sexo, afastando os lábios com os dedos anelar e
indicador, e tocando levemente o clitóris ora em movimentos circulares, ora pressionando um pouco mais e, de vez em quando, gradualmente, penetrando-a, cada vez mais profundamente com o dedo maior da mão direita.
Continuam a beijar-se, cada vez mais sedentos um do outro, com uma sede que cresce mais
quanto mais se mata. Uma das mãos dela afadiga-se com a fivela do cinto, depois com os botões dos jeans e finalmente toma para si o sexo quente e latejante tomado de vida própria.
Ele rodeia-lhe a cintura com um braço e levanta-se, fazendo-a dobrar-se sobre a mesa e o
portátil aberto onde ela já havia terminado o jogo. Depois levanta-lhe a saia sobre as costas, baixa os seus próprios jeans e penetra-a um pouco. As mãos voltam a tomar os peitos dela e ele dobra-se para lhe tornar a beijar as costas, tornando a penetração mais profunda a cada beijo.
O movimento acelera e ele ergue-se, agarrando-lhe a cintura com as duas mão e puxando-a
para si a cada penetração. Ela pousa as mãos sobre a mesa de reuniões, os dedos bem abertos para se segurar a cada uma das investidas dele e poder fazer pela sua vez força de encontro a ele. Estão cada vez mais sincronizados, cada vez mais cientes do prazer um do outro.
Ela acaba por levar a mão esquerda por entre as pernas para lhe acariciar os testículos, ele
por sua vez resolve juntar a sua à dela, mas para lhe acariciar o clitóris, agora mais rapidamente que antes.
O gemido dela que anuncia esse momento indescritível é seguido de um pequeno Ah! de
satisfação que atira alguma saliva de encontro ao ecrã do portátil que está directamente debaixo da cara dela. Poucos segundos depois ela sente-o impulsionar-se um pouco mais ainda para dentro dela, algo que parece sempre impossível até acontecer, e inundá-la de calor.
Depois quase tombam lado a lado, as cabeças bem juntas sobre a mesa de reuniões. Olham-se
assim, próximos como nunca e desde sempre estiveram, sorriem, beijam-se mais algumas vezes, agora com beijos rápidos e carinhosos. Não são precisas palavras, lêem tudo o que poderiam dizer um ao outro nos olhos.
Quando as palavras vêm, é para ela lhe lembrar onde estão e que devem compor-se, não vá aparecer alguém.
Mais tarde, já em casa, ele volta a abrir o jogo no portátil. Ao fim da primeira partida ri-se alto. No topo da classificação está um jogador que assinou ‘Passei-te!’
Na segunda seguinte ele volta do trabalho e traz-lhe algumas folhas impressas e estende-lhas, sorrindo.
- Ora vê lá o que fizeste...
Na última página depois de algum texto encontra-se o seguinte:
aPasrwaasda5Cqdsafraq3mdxsfreonfsroqc5msofm5mqAsorm6m
3zxodo3rr2qsssre6edmfsrp3pdrrr6qdesetq25dsreq5dsre6wdfsxre6dsre5q4
dsftw2dsrpoersde4w2çlºp+0dsr6e-.ªÇs6dtr
sdçxdsfrorsd5ºp~srsdr5qçoºpsqr5çlr5sçl6rslçr5sçºsr5çor5s5rers5
5555555555555oççrs555555555555555
- É a linguagem do sexo! - Diz ele rindo.
Friday, April 28, 2006
Tuesday, April 25, 2006
25 de Abril sempre!
Há dias, durante uma das minhas, agora raras, deambulações pela internet, tropecei num blog nacionalista. Ou pro-fascista, ou coisa do género, que não sei bem qual o nome que agora usam. Enfim um desses que advogam o retorno ao passado, a renegação da evolução, que culpam de tudo o que está mal agora, a revolução de 1974.
Um dos artigos, dos poucos que saiam do âmbito futebolístico, coisa que parece propícia à proliferação desta ideologia, versava na questão do orgulho. Dizia a autora que hoje em dia se perdeu o orgulho em ser português, a não ser quando a selecção nacional de futebol está envolvida numa grande competição, que se ensina às criancinhas que devem ter vergonha da sua nacionalidade, que os descobrimentos estão esquecidos, que o império foi destruído pelos traidores que nos governam que, enfim, dantes é que era bom...
Podia aproveitar a deixa e rebater algumas destas afirmações. Podia, por exemplo, dizer que colocar bandeirinhas à janela quando a selecção joga não é um acto de patriotismo mas de puro embarque numa campanha publicitária, algo cuja relevância e contributo para o progresso do país é, efectivamente, nulo. Podia dizer que nunca ouvi numa escola denegrir os descobrimentos ou mostrar a sua face mais negativa, que já há muito não via tanta preocupação escolar em dar a velha imagem do Portugal heróico e imaculado como agora e que o império já estava moribumdo quando se deu a revolução e, embora tenha sido mal feita, a descolonização era inevitável... Podia, mas não o vou fazer.
Vou antes, para não fugir ao espírito que presidiu a criação deste humilde blog, dar uma visão oblíqua do orgulho nacional.
O orgulho nacional tem duas faces, como qualquer medalha ou moeda. De um lado temos caras, do outro coroas. De um lado temos o orgulho, do outro a vergonha.
Devemos ter orgulho em termos descoberto meio mundo? Sim, claro. Mas não devemo ter também vergonha de ter acompanhado isso com a escravatura?
Devemos ter orgulho em ter sido, senão o primeiro, um dos primeiros países europeus a abolir a escravatura? Sim, claro. Mas não devemos esquecer que, na prática, ela só terminou em 1974 e isso é uma vergonha.
Devemos ter orgulho em nos termos libertado de uma ditadura de décadas com uma revolução pacífica e inspiradora da libertação de outros povos, como o brasileiro? Sim, claro. Mas não devemos também ter vergonha de, durante trinta anos, não termos sabido escolher os nossos governantes e exigido deles o cumprimento do seus deveres e promessas?
Devemos ter orgulho em aceitar o desafio e participar na construção de uma europa mais forte? Sim, claro. Mas não devemos ter vergonha do péssimo aproveitamento que fizemos das oportunidades e benesses dadas por essa mesma europa?
Todos os países têm de que se orgulhar e de que se envergonhar. Não há nenhum país sem mácula histórica. Nenhum que tenha um grande feito histórico a que não se possam associar aspectos negativos. É, podíamos dizer por força da constância histórica, uma lei da vida.
A autora do outro blog, provavelmente, não concordará comigo, ou argumentará que algumas coisas que digo são falsas. É um direito que lhe assiste... Nem todos temos de pensar por nós mesmos, ou optar por não seguir ideologias alheias. Nem todos somos obrigados a procurar um caminho próprio, sem alinhamento ou liderança que não a nossa consciência. Alguns preferem ser conduzidos e doutrinados em ideologias ultrapassadas. É um direito que devemos respeitar. Um direito que a própria revolução de Abril de 1974 procurou e conseguiu, até agora, fazer vingar.
Há algo, portanto, em que nos distinguimos à partida. Eu, fruto do que aprendi sobre o 25 de Abril de 1974, sei que, mesmo discordando, devo permitir que os outros tenham a sua opinião. Ela, a conseguir que a sua ideologia vingasse, procuraria reprimir a minha...
Por isso, e mesmo sabendo que alguns gostariam que nunca tivesse ocorrido, eu afirmo aqui, em homenagem aos que arriscaram as vidas para o fazer, contra todas as forças de repressão, em Portugal ou noutro lado qualquer, agora e até ao fim dos meus dias:
25 de Abril, sempre! Fascismo, nunca mais!
Um dos artigos, dos poucos que saiam do âmbito futebolístico, coisa que parece propícia à proliferação desta ideologia, versava na questão do orgulho. Dizia a autora que hoje em dia se perdeu o orgulho em ser português, a não ser quando a selecção nacional de futebol está envolvida numa grande competição, que se ensina às criancinhas que devem ter vergonha da sua nacionalidade, que os descobrimentos estão esquecidos, que o império foi destruído pelos traidores que nos governam que, enfim, dantes é que era bom...
Podia aproveitar a deixa e rebater algumas destas afirmações. Podia, por exemplo, dizer que colocar bandeirinhas à janela quando a selecção joga não é um acto de patriotismo mas de puro embarque numa campanha publicitária, algo cuja relevância e contributo para o progresso do país é, efectivamente, nulo. Podia dizer que nunca ouvi numa escola denegrir os descobrimentos ou mostrar a sua face mais negativa, que já há muito não via tanta preocupação escolar em dar a velha imagem do Portugal heróico e imaculado como agora e que o império já estava moribumdo quando se deu a revolução e, embora tenha sido mal feita, a descolonização era inevitável... Podia, mas não o vou fazer.
Vou antes, para não fugir ao espírito que presidiu a criação deste humilde blog, dar uma visão oblíqua do orgulho nacional.
O orgulho nacional tem duas faces, como qualquer medalha ou moeda. De um lado temos caras, do outro coroas. De um lado temos o orgulho, do outro a vergonha.
Devemos ter orgulho em termos descoberto meio mundo? Sim, claro. Mas não devemo ter também vergonha de ter acompanhado isso com a escravatura?
Devemos ter orgulho em ter sido, senão o primeiro, um dos primeiros países europeus a abolir a escravatura? Sim, claro. Mas não devemos esquecer que, na prática, ela só terminou em 1974 e isso é uma vergonha.
Devemos ter orgulho em nos termos libertado de uma ditadura de décadas com uma revolução pacífica e inspiradora da libertação de outros povos, como o brasileiro? Sim, claro. Mas não devemos também ter vergonha de, durante trinta anos, não termos sabido escolher os nossos governantes e exigido deles o cumprimento do seus deveres e promessas?
Devemos ter orgulho em aceitar o desafio e participar na construção de uma europa mais forte? Sim, claro. Mas não devemos ter vergonha do péssimo aproveitamento que fizemos das oportunidades e benesses dadas por essa mesma europa?
Todos os países têm de que se orgulhar e de que se envergonhar. Não há nenhum país sem mácula histórica. Nenhum que tenha um grande feito histórico a que não se possam associar aspectos negativos. É, podíamos dizer por força da constância histórica, uma lei da vida.
A autora do outro blog, provavelmente, não concordará comigo, ou argumentará que algumas coisas que digo são falsas. É um direito que lhe assiste... Nem todos temos de pensar por nós mesmos, ou optar por não seguir ideologias alheias. Nem todos somos obrigados a procurar um caminho próprio, sem alinhamento ou liderança que não a nossa consciência. Alguns preferem ser conduzidos e doutrinados em ideologias ultrapassadas. É um direito que devemos respeitar. Um direito que a própria revolução de Abril de 1974 procurou e conseguiu, até agora, fazer vingar.
Há algo, portanto, em que nos distinguimos à partida. Eu, fruto do que aprendi sobre o 25 de Abril de 1974, sei que, mesmo discordando, devo permitir que os outros tenham a sua opinião. Ela, a conseguir que a sua ideologia vingasse, procuraria reprimir a minha...
Por isso, e mesmo sabendo que alguns gostariam que nunca tivesse ocorrido, eu afirmo aqui, em homenagem aos que arriscaram as vidas para o fazer, contra todas as forças de repressão, em Portugal ou noutro lado qualquer, agora e até ao fim dos meus dias:
25 de Abril, sempre! Fascismo, nunca mais!
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