Wednesday, May 18, 2011

Programa? Qual programa?

Assistiu-se recentemente à centralização do pseudo-debate político numa troca de acusações acerca da oportunidade no lançamento dos programas eleitorais de PS e PSD. Fui ver, afinal, de que programas se estava a falar... E descobri que não se estava a falar de programa nenhum. Pelo menos que me fosse permitido ler em condições...

No site do PS é possível descarregar um PDF que, supostamente, seria o programa eleitoral desse partido para o período legislativo de 2011 a 2015. Não é nada disso... É uma cópia do discurso de apresentação do "querido líder" José Sócrates.

No site do PSD está disponível uma versão de um documento de mais de 250 páginas. Está disponível é como quem diz... O PSD optou por utilizar um serviço online (issu.com) que permite disponibilizar publicações com um alinhamento similar ao de uma publicação em papel.
É uma aplicação gira, gratuita, onde se podem encontrar muitas publicações interessantes, especialmente revistas.
O problema é que esta plataforma é pensada e adequada precisamente a esse tipo de publicação: revistas. Não serve bem o propósito da apresentação de um documento extenso como este pretenso programa eleitoral.
Ainda por cima, o PSD não disponibilizou a impressão do ficheiro completo. Sei que o issu.com permite ao publicador libertar essa opção aos utilizadores, mas caso tal não seja feito, só se podem imprimir, no máximo, duas páginas de cada vez... Ora eu não tenho paciência para estar ali tanto tempo.
Optei por tentar ler mesmo ali, online, por muito que tal me desagrade. E descobri que este programa também não o é... É melhor que uma simples transcrição de um discurso, é verdade. Mas não é um programa.

Um programa é uma sequência de acções concretas e precisas que se implementam para atingir determinados objectivos ou soluções. Estes documentos são, na melhor das hipóteses, declarações de intenções. Nada ali é realmente concreto e preciso. Nada é agendado ou escalonado. Nenhuma parte de nenhum destes dois documentos é um programa.

Sempre soube que era uma minoria a ler estes "programas eleitorais"... Agora sei porquê. Não interessam para absolutamente nada.

Monday, March 21, 2011

Foi bonito, pá! Mas... e agora?

Após três anos, seis meses e onze dias volto a este blog.

Volto porque algo extraordinário aconteceu há pouco mais de uma semana. Refiro-me à manifestação apelidada da "geração à rasca". Não gosto nem concordo com o termo, até porque a dita manifestação teve o condão de juntar várias gerações num protesto generalizado contra a incompetência também generalizada que tem conduzido o país ao estado lastimoso em que cada vez mais pessoas vão tendo consciência ele se encontra.
Foi bonito de ver uma tão grande mobilização sem qualquer organização partidária envolvida. Foi bonito saber que não ocorreram desacatos dignos de nota. Foi bonito quase sentir o perfume da revolução no ar...
Foi bonito, mesmo que tal coloque Portugal no conjunto de países onde a população está de tal modo farta do sistema que a rege que se manifesta de forma espontânea fora desse mesmo sistema, e isso seja um pouco triste. É que a Líbia, o Egipto, o Bahrein e outros não são países onde seja surpreendente uma manifestação contra um regime autoritário. O que é surpreendente é que um país supostamente democrático esteja pronto para algo similar.
Mas foi bonito.
E agora?

Que vão fazer os milhares de pessoas que se manifestaram a 12 de Março? Ficarão satisfeitas com esta manifestação tendo a sua sede de demonstrar o seu descontentamento saciada? Voltaremos a cair no velho hábito Português de reclamar aos berros e depois não fazer nada?

Infelizmente não mantive este blog durante muito tempo e não ficou aqui registada uma espécie de previsão que fiz acerca do futuro deste governo algum tempo antes das eleições presidenciais. Previ ainda antes do início da campanha eleitoral que este Sócrates cairia em Maio... Parece que errei por cerca de um mês. Parece que vai cair esta semana. Ainda assim, acho que foi um palpite razoável. O cinismo dos dois Sócrates, o Rosa e o Laranja, aliados ao calculismo político deste Sampaio Laranja, eram indicadores muito fortes para o que se sucederia.
Por um lado Maio já deveria ser tempo suficiente para que o Rosa se queimasse o suficiente para os Laranjas se sentirem confiantes numa maioria absoluta. Também me parecia difícil que o Rosa conseguisse aguentar-se com acordos, ou que estivesse interessado nisso, muito mais tempo. Afinal, a única opção que lhe resta é tentar diminuir os danos caindo o mais cedo possível.

Então que se irá passar agora, depois da queda do Sócrates Rosa? Teremos um Sócrates Laranja? Será isso inevitável?
Não estará na altura de demonstrar mais categoricamente ainda a insatisfação com o estado de coisas?
Como defender a democracia e ao mesmo tempo colocar em cheque o podre sistema partidário? Como evitar a queda numa ditadura e obrigar a classe política a uma tomada de consciência de que se impõe uma mudança e uma limpeza nas suas atitudes?

Pessoalmente creio que existe uma atitude lúcida a tomar, já há algum tempo exposta pelo Nobel da Literatura português. Votar, mas votar em branco...

Monday, September 10, 2007

Casual friday

Tenho estado arredado deste blog. Não vou justificar porquê porque não o poderia fazer, não sabendo eu próprio as razões, e porque, afinal, não tenho que o fazer.
Por isso, pedindo apenas desculpas aos meus (poucos) leitores se acaso lhe sentiram a falta, vou apenas prosseguir com a publicação de mais este post.


A ideia para este texto surgiu-me ao falar com dois amigos acerca das casual fridays. Na minha profissão não me é exigido usar fato e gravata. Já fui a entrevistas em que me mencionaram que tal seria uma necessidade e isso contribuiu de forma cabal para que eu recusasse o lugar. O valor que me propunham não era suficientemente elevado para pagar o incómodo de andar uniformizado com um pedaço de pano absolutamente inútil amarrado ao pescoço. Para isso já me chegou o serviço militar obrigatório.

Os meus amigos estão habituados à situação e medem, em parte, a qualidade dos lugares em que eles e outros trabalham pela permissividade das casual fridays em cada lugar. Em alguns sítios a prática limita-se a tolerar que não se tragam gravatas para o trabalho, noutros até aceitam que se usem calças de ganga, vejam lá!
Perante esta ideia perguntei:

- Mas então às sextas vocês não têm que trabalhar tanto como nos outros dias?

Pareceu-me lógico que a exigência de um determinado tipo de indumentária se prendesse com a produtividade, ou com a segurança, mas o trabalho deles não envolve propriamente riscos de lesões físicas por acidente de trabalho portanto só podia ser por causa da produtividade. De algum modo que me escapava, o fato e a gravata tornavam-nos, a eles, mais produtivos. Sem tal indumentária o seu trabalho seria prejudicado.

Responderam-me que não. Que às vezes até tinham que trabalhar mais. Não me puderam explicar depois qual era a justificação para que à sexta não tivessem que usar fato e gravata. Parece que tem algo a ver com uma teoria de gestão de recursos humanos que procura melhorar o ambiente nos escritórios desta forma. Se tal fosse verdade seria lógico estender a prática aos outros dias, parece-me evidente. Mas não... é só à sexta feira.
Creio que, na verdade, é apenas mais uma espécie de cenoura que faz os cavalos caminhar... Um pequeno doce dado aos escravos corporativos para que não se rebelem. Como dizia Thoreau, "Cuidado com as empresas que exigem roupas novas."
Também há uma explicação para esta prática no interesse de certas empresas em impor os seu produtos no ambiente de escritório. Consta-se que algumas destas empresas terão, durante os anos 70 do século vinte, apoiado uma campanha maciça para a implementação da prática.

Depois pus-me a pensar na utilidade das gravatas. Nas pessoas que as usam e no efeito que pretendem atingir com elas.

Quanto à utilidade, é nula. Ainda que na sua origem mais remota se possa associar à prática das legiões romanas
de usar um pedaço de tecido no pescoço para aparar o suor ou aquecer o pescoço em longas marchas, a gravata moderna tem a sua origem numa prática meramente decorativa de um regimento de cavalaria Croata que foi apresentado ao rei Louis XIV de França usando pedaços coloridos de pano ao pescoço. O rei, conhecido pela sua futilidade e extrema vaidade, achou piada à coisa (ou teria sido aos croatas?) e lançou a moda. O termo gravata vem de cravatte que por sua vez vem de croat. Daí passou para a Inglaterra e espalhou-se pelo mundo. Chegaram a usar-se acumulações de pano tais em redor do pescoço que não era possível aos homens mover a cabeça para olhar para o lado, tendo para isso que rodar todo o corpo.
Daqui vem mais um ponto para a defesa de que a moda contribui muito pouco para o progresso da humanidade... mas isso é outra história.
Há até uma série de contra indicações médicas ao uso da gravata. Em certas profissões o uso de gravata é desaconselhado devido à possibilidade de estrangulamento. De notar que aqui se inclui a carreira policial e outras onde o confronto físico pode ocorrer. Existe também uma série de riscos associada à constrição vascular que pode provocar danos na retina. Pessoas com glaucoma são particularmente sensíveis...
Curiosamente um dos campos em que o uso de gravatas parece ser mais prejudicial é o médico. As gravatas são uma grave fonte de contaminações cruzadas nos hospitais por entrarem em contacto com vários pacientes durante os exames médicos.

Quanto aos efeitos, é outra história.
Segundo me parece tornou-se mais ou menos comum associar o uso da gravata com profissionalismo e seriedade. Isto poderá advir da função de separador social que a cravatte terá tido no seu início real. A verdade é que os humanos tendem a procurar distinguir-se e discriminar-se em função da sua riqueza e posses e a roupa foi sempre uma forma de potenciar essa discriminação.
Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe que o profissionalismo não depende da indumentária. Aliás, a minha experiência é de que quanto mais aperaltados e preocupados com a imagem são os trabalhadores, menos competentes são... os recursos não dão para tudo e ou bem que nos preocupamos em transmitir uma imagem, ou bem que trabalhamos.
E se pensarmos bem, as profissões mais habitualmente associadas ao uso de gravata são aquelas que nos merecem menos confiança... Não usam a maioria dos políticos gravata? E quantos de nós somos ainda tão ingénuos que os cremos sérios?

Tuesday, April 24, 2007

A Arte da Não-Engenharia

Engenho e Arte foram há muito ligados e deram frutos, mas não foram os únicos.



Há uma outra forma de arte bastarda que, sendo estéril e não podendo dar frutos tão nobres, resolveu criar uma forma corrompida de engenho. Uma Não-Engenharia, por assim dizer.

Nada disto seria grave se não nos afectasse, mas começamos a vislumbrar que estamos a ser governados por um Não-Engenheiro, filho e amante da bastarda arte da política.



A verdade é que, tenha ou não concluído os estudos, esteja ou não inscrito na ordem, o primeiro ministro nunca foi Engenheiro. Um Engenheiro, um verdadeiro Engenheiro, não precisa de ter acabado um curso de engenharia, não precisa de estar inscrito na ordem, precisa, isso sim, de trabalhar como engenheiro. Tudo o resto é mera burocracia e política.



De toda esta trapalhada à volta do curso do primeiro ministro há algumas coisas que poderiam ser bem analisadas e vistas. Toda a gente sabe que os políticos são trafulhas. Toda a gente sabe que se aproveitam da sua condição e influência. Isso é o banal e o diário e quem tinha ideia de que este primeiro ministro era honesto e incorrupto tem uma dose de ingenuidade que deve estimar pois isso permite-lhe ver o mundo e a vida de uma forma bem mais rosada do que, de facto, são.



Que importa que o Sr. Sócrates tenha ou não concluído o curso? Ele nunca trabalhou na vida. Passou da Universidade para a carreira política e por ali tem andado, gastando o que os outros produzem de forma absurda. Essa é a sua história de vida. Para tal, não é necessário engenho... Basta algum domínio da bastarda arte.



Aquilo que se poderia ver e aproveitar para corrigir partindo desta história seria, por exemplo, o estado lastimoso e a rebaldaria que vão pelo ensino superior privado em Portugal. Desde a quantidade astronómica de cursos inúteis e absurdos às ligações destas instituições ao mundo do crime. Poder-se-ia tentar que estas instituições vissem o seu número reduzido àquelas que, realmente, formam elementos válidos da sociedade e transmitem conhecimentos úteis. Já seria hora de encerrar muitos dos estabelecimentos que não passam de negociatas e fachadas. E são tantos...



Outra coisa que se podia aproveitar para fazer era rever a forma como se regula e permite o exercício de certas profissões. Fará algum sentido toda esta panóplia de ordens que vai surgindo por aí?

Que é a ordem dos engenheiros senão um lobby instituído, uma espécie de sindicato e mais uma estrutura que dá muito dinheiro a ganhar a tantos que produzem tão pouco?

Porque será que alguém tem que estar inscrito na ordem para poder exercer a profissão de engenheiro? Não envergonha o estado que os cursos que ele ministra e valida como formadores de engenheiros sejam sujeitos a uma aprovação posterior por uma instituição privada? Não será esta obrigatoriedade de inscrição na ordem um assumir de incompetência do estado enquanto formador?

E o processo de validação será assim tão válido e garantia de competência?

Quando eu comecei a estudar, o curso que frequentava não era reconhecido pela ordem dos engenheiros. Agora, com a implementação de Bolonha, já é. Mas quase nada mudou no conteúdo programático... apenas alterações de horários, designações das disciplinas e alguns procedimentos, francamente mais burocráticos e absurdos que anteriormente. Com estas pequenas alterações estéticas o curso passou a ser reconhecido pela ordem com direito a inscrição automática e directa. Afinal, que garantias dá a ordem de que os seus membros são competentes? Nenhumas...

Os meus clientes e os de outros como eu sim. Esses podem atestar a qualidade (ou falta dela, se for o caso) do meu trabalho. É o mercado que diz quem é, verdadeiramente, um Engenheiro.



Tudo o resto é papelada. E poucos há que manipulem papel com a mesma destreza e argúcia que os praticantes da arte bastarda...





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Thursday, February 08, 2007

Insólito

É verdade... sucedeu-me algo insólito. Por incrível que pareça, por mais contra natura que tal facto seja, concordei com o primeiro ministro.
Eu conto-vos como tal pôde suceder.

Tudo começou com as declarações do ministro da economia na recente visita à China. Disse o senhor que Portugal tinha vantagens competitivas por ter salários mais baixos que a média europeia. Isto num país conhecido por ter uma mão de obra baratíssima que é responsável pela implantação aí de muitas empresas estrangeiras. Foi uma parvoíce... Mas na verdade, que diria o homem para mostrar alguma razão aos chineses para investirem em Portugal? A verdade é que Portugal não tem nenhuma vantagem sobre a China que esta não encontre ainda melhor num outro país da União Europeia. Naturalmente que, sendo co-responsável pelo estado lastimoso do nível de vida dos portugueses, ele só se lembrou que os desgraçados que ele governa ganham pouco.

Naturalmente que esta parvoíce foi aproveitada pelos partidos da oposição, mesmo por aqueles que são também co-responsáveis pelo estado da economia e dos salários em Portugal.

Foi aqui que o primeiro ministro resolveu intervir. Não sei porquê... seria mais inteligente deixar que a parvoíce do ministro da economia passasse da memória. Ao menos assim o erro seria só de um elemento do governo e não de dois. Mas enfim... ele resolveu intervir.

E lá veio, metendo os pés pelas mãos e dando desculpas atabalhoadas. No fim, espremendo toda a balbuciada desculpa, o que afinal o ministro da economia queria dizer, mas não disse, era que a mão de obra qualificada é que era mal paga em Portugal. Não percebo em que isto seja bom, mas enfim... O que podemos deduzir das palavras do primeiro ministro, em conjunto com as do ministro da economia é que a mão de obra bem paga em Portugal é a não qualificada.

Pus-me a pensar um pouco nesta desculpa. É um desperdício de tempo, eu sei, pensar nas palavras dos políticos, mas foi numa altura em que estava desocupado, pois tinha-me esquecido de levar um livro para a casa de banho...

Lembrei-me então que os políticos em Portugal ganham bastante mais que a média dos portugueses. Que o salário médio em Portugal ronda os 700 euros. Foi então que concordei com o primeiro ministro.

Os políticos são bem pagos, por isso, como o próprio primeiro ministro sugere na sua atabalhoada defesa do indefensável ministro da economia, são mão de obra desqualificada. Já desconfiava...

Saturday, November 25, 2006

Conciliador e cooperante ou inoperante, conivente?

Li na edição de segunda feira passada, no jornal gratuito metro, uma apreciação positiva à recente entrevista e, mais importante, à actuação institucional do presidente da república.

Dizia o cronista que esta atitude do presidente punha à frente dos interesses pessoais os interesses do país e que era algo que os portugueses agradeciam.

Lamento desapontá-lo, mas está enganado na sua generalização. Não se preocupe, é um problema comum nas generalizações a que hoje em dia tanto se gosta de recorrer no dito jornalismo. Basta que umas estatísticas, muitas vezes com uma amostragem ridícula, indiquem uma conclusão qualquer que logo se dispara para a generalização. Pois, eu não agradeço esta atitude a que chama de conciliadora e cooperante. Na minha opinião trata-se de uma atitude de inoperância e conivência com medidas danosas para os portugueses e para Portugal.

Em primeiro lugar, esta atitude é conivente pois pactua com a quebra de compromissos eleitorais e programáticos que o partido agora no governo fez aos portugueses. É uma atitude de tolerância de uma aldrabice, um logro, uma fraude é, nessa perspectiva, uma atitude cúmplice.

É inoperante ou hipócrita. Ainda há bem pouco tempo este presidente da república chamava a atenção para a necessidade do combate à exclusão social daqueles que, por um motivo ou outro, são mais desfavorecidos na sociedade. Ora este governo prepara-se para agravar a carga fiscal aos deficientes. Diga-me, caro cronista, em que medida é que tal atitude contribui para a inclusão social dos deficientes, se for capaz. Diga-me se defender a inclusão social em discursos e não actuar em sua defesa nas atitudes não poderá, mesmo na melhor das hipóteses ser considerado um hipocrisia e, na pior, inoperância ou incompetência.

Poderíamos até ser um pouco mais críticos e tentar lembrar quais as medidas que o actual presidente tomou enquanto primeiro ministro para combater a exclusão social. Será que, após tal análise, reconheceríamos a este homem estatura moral para exigir qualquer tipo de acção neste sentido tendo em conta o que teria feito enquanto detentor do poder?

Entretanto, um grupo de empresários criou um fundo para combater o insucesso escolar, como medida para o combate à exclusão social. É uma atitude louvável, acima de qualquer crítica, não há dúvida quanto a isso. O que é triste é que tenham que ser empresário privados a fazê-lo. O que é triste é que tenham o empresários que se substituir ao ministério da educação que, por sua vez, tudo faz para ajudar ao insucesso escolar e à insatisfação tanto de alunos como de professores. Talvez a grande vantagem desta atitude não seja combater a exclusão. Talvez o seu maior mérito seja fazer-nos perceber que o dinheiro dos nossos impostos serve cada vez para menos além de pagar os salários à classe política que é, cada vez mais, inútil.

Este presidente da república não é muito diferente dos anteriores. Durante o primeiro mandato optam por um perfil discreto e cooperante com o governo por forma a terem menos dificuldades em garantir a obtenção do segundo mandato pois os partidos que governam sob a sua alçada, quer sejam da mesma cor ou não, não lhe farão grande combate nas eleições seguintes. Talvez apresentem um daqueles candidatos suicida que aparecem à frente de uma corrida que não poderão nunca vencer apenas para que o partido não esteja completamente ausente nas eleições. Aliás, este senhor que actualmente ocupa a posição de presidente da república fez exactamente isso com um seu correlegionário e ex-ministro da defesa.

Depois, os presidentes preocupam-se em definir um estilo que lhes venha a ser atribuído e, quem sabe, mencionado de quando em vez como algo original que eles próprios desenvolveram. Admira-me até que não recorram a patentes neste campo, afinal, o patentear de tudo e mais alguma coisa está na moda…

Nos últimos presidentes tivemos o que criou as presidências abertas, ou seja, passeios gastronómicos e acções de campanha e os constantes ‘porque’ nos discursos mais inflamados. Depois o presidente do ‘é preciso’ e que fazia nada, recorrendo também aos passeios gastronómicos, agora chamados de semanas temáticas. Este é o da responsabilização da sociedade civil, o que sacode a água do capote e atira para todos os outros os problemas que, enquanto primeiro-ministro, não resolveu e, em alguns casos criou. Para este presidente a responsabilidade da resolução dos problemas e da sua existência é da sociedade civil, nunca da classe política de já quase lendária (se ao fosse mesmo lendária e não real) incompetência que governa Portugal há centenas de anos.

Quem tem culpa de os incêndios devastarem hectares e hectares de floresta todos os anos não é a classe política que, ano após ano não faz nada excepto operações de estética e reorganização inconsequente dos serviços de protecção civil e que, anos após ano recusa, teimosamente, a aquisição de meios adequados ao combate eficaz dos fogos. A culpa, para este presidente, é de quem faz piqueniques e lança foguetes.


A culpa do estado lastimoso dos serviços de saúde em Portugal não é da classe política e da sua incapacidade para enfrentar interesses e tomar uma atitude definitiva e concertada nesta área, é das pessoas que não se alimentam bem e não cuidam da saúde. Os portugueses ficam doentes demais.


A responsabilidade de combater a exclusão social não é da classe política, é da sociedade civil. Não é por culpa das más governações que os portugueses têm salários baixos e cargas fiscais altas, não é por culpa de presidentes que deixam aprovar sem remoque um orçamento que promove a exclusão social, nem pensar nisso, é a sociedade civil que tem responsabilidade em erradicar este problema, mesmo que a classe política tudo faça para que tal se agrave, algumas vezes, e nada faça para que se atenue, nunca.

Este presidente é inoperante e conivente com um governo mentiroso e incompetente. Este presidente coopera com uma classe política corrupta e mal intencionada.


Talvez o cronista que agradece esta atitude discorde de mim, talvez ele até concorde e não o possa dizer por forma a manter o seu estatuto de opinion maker e o seu emprego como jornalista, mas eu não tenho que o fazer e não lhe admito que fale por mim. Eu não agradeço nem concordo com as atitudes deste presidente e, como sou português, desminto aqui, assim, a sua generalização.

Saturday, September 02, 2006

O rumo da nossa história

Estive de férias.
Durante este idílico período, curto como todos os idílios, assisti a mais alguma televisão do que é costume. Afinal as férias são um período para mudar o comportamento habitual e sendo um período de indulgência pessoal, creio que ninguém me levará a mal ter cometido este pequeno pecado.
Numa dessas alturas em que estava adormecer o cérebro, assiti a um anúncio a um relógio, não me recordo agora se seria da Federação Portuguesa de Futebol, ou coisa corrupta do género, mas recordo-me que o referido instrumento cronográfico era autografado pelo brasileiro seleccionador de futebol de Portugal. Até aqui nada de estranho... A televisão estupidifica as massas e alguém lucra com isso.
O que achei chocante foi ao ponto de degradação a que a auto-estima dos portugueses chegou, ou poderá ter chegado.
Perto do final do anúncio um locutor afirma que o brasileiro seleccionador de futebol de Portugal é, passo a citar, " o homem que mudou o curso à nossa história", fim de citação.
Acho degradante que um locutor aceite proferir tais palavras acerca de um país com oito séculos de história e com milhares de pessoas que poderão ter alterado o rumo da mesma, enquanto nação, de uma forma verdadeiramente radical e, preferencialmente, positiva e que niguém, no longo percurso deste anúncio tenha impedido de se insultar de tal forma a história do país.
Peguei num livro de história e resolvi folheá-lo a procurar alguns nomes... Acabei por simplesmente ler o índice das legendas das ilustrações, aqui ficam alguns:

D. Afonso Henriques; Pedro Hispano; Rainha S. Isabel; D. Pedro I; D. Nuno Álvares Pereira; Infante D. Henrique; Gil Eanes; Vasco da Gama; D. Manuel I; Afonso de Albuquerque; Fernão de Magalhães; Luís de Camões; D. João IV; Marquês de Pombal; Bocage; Marechal-duque de Saldanha; Alexandre Herculano; Passos Manuel; D. Pedro V; Mouzinho de Albuquerque; António Nobre; Eça de Queirós; Teófilo Braga; Fernando Pessoa; Almada Negreiros; Sidónio Pais; Gago Coutinho; António Sérgio; General Humberto Delgado; Álvaro Cunhal; Mário Soares; Francisco Sá Carneiro; Salgueiro Maia; Otelo Saraiva de Carvalho; Ramalho Eanes; Maria de Lurdes Pintassilgo; Miguel Torga; José Afonso; Siza Vieira;Cavaco Silva; José Saramago, etc...

Quem é o brasileiro seleccionador de futebol de Portugal à beira de qualquer uma destas figuras e de muitas mais com importância e valor bem acima do que um mero treinador de futebol poderá alguma vez ambicionar, porque as suas funções são ligadas a algo supérfluo, fútil, uma diversão e nada mais, mesmo que seja um treinador excelente?
Que fez este estrangeiro por Portugal além de cobrar milhares e milhares de euros para fazer alguns jogos por ano? A selecção portuguesa ganhou alguma competição sob o comando deste tipo? Limitou-se a perder um pouco mais tarde, só isso... Nem sequer chegou tão longe como já foi conseguido antes.

Mesmo que fossemos tão pobres de história que tivessemos que recorrer ao desporto para termos motivos de admiração pelos nossos feitos como país e povo, outros nomes apresentam realmente vitórias e demonstrações de estar acima de tudo e de todos. Carlos Lopes e Rosa Mota, assim de repente, saltam à ideia. Se fossemos ainda tão parcos de ideias que tivessemos que ficar pelo futebol, merece muito mais crédito a selecção que conseguiu um terceiro lugar no campeonato do mundo de 1966 que é, até agora, a melhor classificação da selecção portuguesa de futebol.

É chocante que alguém idealize um anúncio com esta frase, que o locutor aceite dizer tamanha barbaridade, que a Federação Portuguesa de Futebol, ou algo corrupto do género, tenha aprovado tal texto, que as direcções das televisões aceitem transmiti-lo e ninguém se tenha apercebido da enormidade do insulto que se fazia a Portugal.
Mas o mais chocante de tudo, o mais desanimador, o mais revoltante, é saber que há portugueses que compram um artigo anunciado desta forma.
É esta consciência que me faz esperar que surja algo que, realmente, mude o curso à nossa história, porque estámos, enquanto povo e país a anular-nos e gastar-nos em nada, rendendo-nos à aceitação de que só poderemos vencer graças a um estrangeiro e em algo completamente fútil como o futebol.