Estive de férias.
Durante este idílico período, curto como todos os idílios, assisti a mais alguma televisão do que é costume. Afinal as férias são um período para mudar o comportamento habitual e sendo um período de indulgência pessoal, creio que ninguém me levará a mal ter cometido este pequeno pecado.
Numa dessas alturas em que estava adormecer o cérebro, assiti a um anúncio a um relógio, não me recordo agora se seria da Federação Portuguesa de Futebol, ou coisa corrupta do género, mas recordo-me que o referido instrumento cronográfico era autografado pelo brasileiro seleccionador de futebol de Portugal. Até aqui nada de estranho... A televisão estupidifica as massas e alguém lucra com isso.
O que achei chocante foi ao ponto de degradação a que a auto-estima dos portugueses chegou, ou poderá ter chegado.
Perto do final do anúncio um locutor afirma que o brasileiro seleccionador de futebol de Portugal é, passo a citar, " o homem que mudou o curso à nossa história", fim de citação.
Acho degradante que um locutor aceite proferir tais palavras acerca de um país com oito séculos de história e com milhares de pessoas que poderão ter alterado o rumo da mesma, enquanto nação, de uma forma verdadeiramente radical e, preferencialmente, positiva e que niguém, no longo percurso deste anúncio tenha impedido de se insultar de tal forma a história do país.
Peguei num livro de história e resolvi folheá-lo a procurar alguns nomes... Acabei por simplesmente ler o índice das legendas das ilustrações, aqui ficam alguns:
D. Afonso Henriques; Pedro Hispano; Rainha S. Isabel; D. Pedro I; D. Nuno Álvares Pereira; Infante D. Henrique; Gil Eanes; Vasco da Gama; D. Manuel I; Afonso de Albuquerque; Fernão de Magalhães; Luís de Camões; D. João IV; Marquês de Pombal; Bocage; Marechal-duque de Saldanha; Alexandre Herculano; Passos Manuel; D. Pedro V; Mouzinho de Albuquerque; António Nobre; Eça de Queirós; Teófilo Braga; Fernando Pessoa; Almada Negreiros; Sidónio Pais; Gago Coutinho; António Sérgio; General Humberto Delgado; Álvaro Cunhal; Mário Soares; Francisco Sá Carneiro; Salgueiro Maia; Otelo Saraiva de Carvalho; Ramalho Eanes; Maria de Lurdes Pintassilgo; Miguel Torga; José Afonso; Siza Vieira;Cavaco Silva; José Saramago, etc...
Quem é o brasileiro seleccionador de futebol de Portugal à beira de qualquer uma destas figuras e de muitas mais com importância e valor bem acima do que um mero treinador de futebol poderá alguma vez ambicionar, porque as suas funções são ligadas a algo supérfluo, fútil, uma diversão e nada mais, mesmo que seja um treinador excelente?
Que fez este estrangeiro por Portugal além de cobrar milhares e milhares de euros para fazer alguns jogos por ano? A selecção portuguesa ganhou alguma competição sob o comando deste tipo? Limitou-se a perder um pouco mais tarde, só isso... Nem sequer chegou tão longe como já foi conseguido antes.
Mesmo que fossemos tão pobres de história que tivessemos que recorrer ao desporto para termos motivos de admiração pelos nossos feitos como país e povo, outros nomes apresentam realmente vitórias e demonstrações de estar acima de tudo e de todos. Carlos Lopes e Rosa Mota, assim de repente, saltam à ideia. Se fossemos ainda tão parcos de ideias que tivessemos que ficar pelo futebol, merece muito mais crédito a selecção que conseguiu um terceiro lugar no campeonato do mundo de 1966 que é, até agora, a melhor classificação da selecção portuguesa de futebol.
É chocante que alguém idealize um anúncio com esta frase, que o locutor aceite dizer tamanha barbaridade, que a Federação Portuguesa de Futebol, ou algo corrupto do género, tenha aprovado tal texto, que as direcções das televisões aceitem transmiti-lo e ninguém se tenha apercebido da enormidade do insulto que se fazia a Portugal.
Mas o mais chocante de tudo, o mais desanimador, o mais revoltante, é saber que há portugueses que compram um artigo anunciado desta forma.
É esta consciência que me faz esperar que surja algo que, realmente, mude o curso à nossa história, porque estámos, enquanto povo e país a anular-nos e gastar-nos em nada, rendendo-nos à aceitação de que só poderemos vencer graças a um estrangeiro e em algo completamente fútil como o futebol.