Wednesday, May 18, 2011

Programa? Qual programa?

Assistiu-se recentemente à centralização do pseudo-debate político numa troca de acusações acerca da oportunidade no lançamento dos programas eleitorais de PS e PSD. Fui ver, afinal, de que programas se estava a falar... E descobri que não se estava a falar de programa nenhum. Pelo menos que me fosse permitido ler em condições...

No site do PS é possível descarregar um PDF que, supostamente, seria o programa eleitoral desse partido para o período legislativo de 2011 a 2015. Não é nada disso... É uma cópia do discurso de apresentação do "querido líder" José Sócrates.

No site do PSD está disponível uma versão de um documento de mais de 250 páginas. Está disponível é como quem diz... O PSD optou por utilizar um serviço online (issu.com) que permite disponibilizar publicações com um alinhamento similar ao de uma publicação em papel.
É uma aplicação gira, gratuita, onde se podem encontrar muitas publicações interessantes, especialmente revistas.
O problema é que esta plataforma é pensada e adequada precisamente a esse tipo de publicação: revistas. Não serve bem o propósito da apresentação de um documento extenso como este pretenso programa eleitoral.
Ainda por cima, o PSD não disponibilizou a impressão do ficheiro completo. Sei que o issu.com permite ao publicador libertar essa opção aos utilizadores, mas caso tal não seja feito, só se podem imprimir, no máximo, duas páginas de cada vez... Ora eu não tenho paciência para estar ali tanto tempo.
Optei por tentar ler mesmo ali, online, por muito que tal me desagrade. E descobri que este programa também não o é... É melhor que uma simples transcrição de um discurso, é verdade. Mas não é um programa.

Um programa é uma sequência de acções concretas e precisas que se implementam para atingir determinados objectivos ou soluções. Estes documentos são, na melhor das hipóteses, declarações de intenções. Nada ali é realmente concreto e preciso. Nada é agendado ou escalonado. Nenhuma parte de nenhum destes dois documentos é um programa.

Sempre soube que era uma minoria a ler estes "programas eleitorais"... Agora sei porquê. Não interessam para absolutamente nada.

Monday, March 21, 2011

Foi bonito, pá! Mas... e agora?

Após três anos, seis meses e onze dias volto a este blog.

Volto porque algo extraordinário aconteceu há pouco mais de uma semana. Refiro-me à manifestação apelidada da "geração à rasca". Não gosto nem concordo com o termo, até porque a dita manifestação teve o condão de juntar várias gerações num protesto generalizado contra a incompetência também generalizada que tem conduzido o país ao estado lastimoso em que cada vez mais pessoas vão tendo consciência ele se encontra.
Foi bonito de ver uma tão grande mobilização sem qualquer organização partidária envolvida. Foi bonito saber que não ocorreram desacatos dignos de nota. Foi bonito quase sentir o perfume da revolução no ar...
Foi bonito, mesmo que tal coloque Portugal no conjunto de países onde a população está de tal modo farta do sistema que a rege que se manifesta de forma espontânea fora desse mesmo sistema, e isso seja um pouco triste. É que a Líbia, o Egipto, o Bahrein e outros não são países onde seja surpreendente uma manifestação contra um regime autoritário. O que é surpreendente é que um país supostamente democrático esteja pronto para algo similar.
Mas foi bonito.
E agora?

Que vão fazer os milhares de pessoas que se manifestaram a 12 de Março? Ficarão satisfeitas com esta manifestação tendo a sua sede de demonstrar o seu descontentamento saciada? Voltaremos a cair no velho hábito Português de reclamar aos berros e depois não fazer nada?

Infelizmente não mantive este blog durante muito tempo e não ficou aqui registada uma espécie de previsão que fiz acerca do futuro deste governo algum tempo antes das eleições presidenciais. Previ ainda antes do início da campanha eleitoral que este Sócrates cairia em Maio... Parece que errei por cerca de um mês. Parece que vai cair esta semana. Ainda assim, acho que foi um palpite razoável. O cinismo dos dois Sócrates, o Rosa e o Laranja, aliados ao calculismo político deste Sampaio Laranja, eram indicadores muito fortes para o que se sucederia.
Por um lado Maio já deveria ser tempo suficiente para que o Rosa se queimasse o suficiente para os Laranjas se sentirem confiantes numa maioria absoluta. Também me parecia difícil que o Rosa conseguisse aguentar-se com acordos, ou que estivesse interessado nisso, muito mais tempo. Afinal, a única opção que lhe resta é tentar diminuir os danos caindo o mais cedo possível.

Então que se irá passar agora, depois da queda do Sócrates Rosa? Teremos um Sócrates Laranja? Será isso inevitável?
Não estará na altura de demonstrar mais categoricamente ainda a insatisfação com o estado de coisas?
Como defender a democracia e ao mesmo tempo colocar em cheque o podre sistema partidário? Como evitar a queda numa ditadura e obrigar a classe política a uma tomada de consciência de que se impõe uma mudança e uma limpeza nas suas atitudes?

Pessoalmente creio que existe uma atitude lúcida a tomar, já há algum tempo exposta pelo Nobel da Literatura português. Votar, mas votar em branco...