Sunday, July 09, 2006

Choque tecnológico? LOL

Depois de um período de férias em que não me apeteceu escrever neste blog e de um período de regresso ao trabalho em que rapidamente voltei a desejar estar em férias, aqui venho aborrecer-vos mais uma vez.

Li recentemente, numa revista dedicada à informática e num destes jornais que nos oferecem nos semáforos, que os portugueses eram atingidos pela iliteracia digital, como se a iliteracia digital fosse uma espécie de projectil e não o fruto de uma sequência quase centenária de políticas de educação indequadas e da alienação da população, por via dos meios de comunicação em massa.
A conclusão é fruto de um estudo do Eurostat acerca da utilização de computadores e da internet pela população dos 25 países membros da UE.
Segundo este estudo, que descarreguei do site do Eurostat para poder ver pelos meus olhos os dados, não confiando às cegas no que vem escrito nos jornais, uma vez que os erros e omissões, propositados ou não, são cada vez mais frequentes, 53% dos portugueses entre os 16 e os 74 anos nunca usaram um computador e 74% não usam a internet de forma regular.
No primeiro caso, da não utilização de computadores, apenas Grécia, Hungria e Itália registam valores piores, sendo que o Chipre apresenta um valor igual. No que respeita à frequência da utilização da Internet, já só a Grécia fica atrás, estando o Chipre, de novo, em igualdade com Portugal.
Outro aspecto preocupante, não mencionado nos artigos que referi, tem a ver com a utilização de computadores no ambiente de trabalho, isto é, qual a percentagem de pessoas empregadas que utilizam computadores de forma habitual nas suas tarefas profissionais. Portugal regista apenas 33%, o sexto valor mais baixo entre os 25 países da UE.
Olhando para estes valores, não pude deixar de me perguntar como seria possível implementar um 'choque tecnológico' na sociedade portuguesa, a curto prazo, como alardeia o governo actual. Não creio que, a curto prazo e com as medidas estapafúrdias tomadas, como a obrigatoriedade de certas operações serem feitas pela internet, tal se consiga. A única coisa que se vai conseguir é tornar a vida mais complicada a uma larga percentagem da população. Veja-se, por exemplo, a última bronca com a alteração dos números de segurança social para 11 dígitos e a consequente impossibilidade de liquidação de dívidas por Multibanco! Hilariante.
Este último caso faz-me também pensar nas possíveis consequências da unificação dos dados dos cidadão sob um cartão digital. Se o estado português é pródigo em fugas de informação - segredo de justiça? isso existe? - e incompetência no que respeita ao cruzamento e validação de dados - lembro só o caso da cobrança de IMI a pessoas que estavam isentas, tudo dentro do mesmo ministério - como poderei eu, que conheço os meandros e o mundo da informática estando por isso consciente que não existem sistemas 100% seguros, confiar informação sensível a esta entidade?
Um choque tecnológico poderá advir da implementação de políticas de educação orientadas para o futuro, de uma constância dessas políticas, não descurando a sua adaptabilidade e adequação à evolução tecnológica, e esforço real na sua realização, ao contrário da constante mudança de rumo, da confusão generalizada e da permanente instabilidade na vida dos professores que, naturalmente, se reflecte na qualidade de ensino.
Parece-me evidente que este 'choque tecnológico', para além de vir trazer mais uns subsídios a alguns amigalhaços, não passará de mais um chavão político, como já foram tantos outros no passado, a 'reforma da justiça', a 'transparência' a 'paixão pela educação', etc.