Thursday, June 01, 2006

Dia da criança

Por trás dos montes altos cobertos de urze, o sol vai nascendo, afastando do céu a cor púrpura que antecede a madrugada. De longe a longe podemos ver uma pequena casa de granito e caminhos poeirentos de terra batida onde o sulco das rodas de carros de bois ainda marcam presença, em conjunto com marcas menos profundas de pneus de motorizada.
Num desses caminhos vai-se tornando, minuto a minuto, mais nítida uma silhueta humana. É pequeno, este humano, veste roupas velhas, gastas e demasiado grandes para si. Numa das mãos carrega uma pequena marmita metálica e usa na cabeça, que vai baixa, uma boina também roída pelo tempo. A mão que carrega a marmita vai bem fechada, mostrando um vigor pouco consentâneo com a sua dimensão reduzida. A outra vai mais relaxada e acompanhando o seu ritmo e movimento poderemos observar que está calejada e que os dedos são fortes e grossos, habituados a esforço. São mãos de homem, mãos de quem trabalha materiais duros e resistentes, mãos queimadas por produtos agressivos, mãos adultas.
O sol desponta por fim sobre um pico e inunda o vale ainda fresco da noite com luz e calor. Nesta altura a figura ergue a cabeça e olha para os montes que a rodeiam. O olhar é vivo, brilhante, e chega longe. Mas há algo estranho neste olhar. Uma tristeza que se adivinha, a expressão de quem vê o belo e se sente preso por ele em vez de liberto como deveria. É um olhar estranho porque se vê normalmente em faces mais envelhecidas, não numa face de criança como esta.
Este rapazito não terá ainda doze anos e as suas mãos e o seu olhar mostram o cansaço e a desilusão de quem já não espera muito neste mundo. Este rapazito vai pelo caminho poeirento, de marmita na mão, em direcção a uma das casitas de pedra de granito que pululam pelo vale. Lá o espera o trabalho de coser sapatos, um após o outro, hora após hora por vinte cêntimos cada. É este critério, e não as horas que trabalha, que ditam o seu horário de trabalho. Quando voltar para casa da avó, já o sol se estará a pôr atrás dos montes, então do outro lado do vale.
Lá vai caminhando, cabisbaixo, pelo caminho poeirento e não volta a levantar o olhar quando por ele passa uma das motorizadas que competem com os carros de bois pela marcação dos caminhos.
Na motorizada segue um homem que tampouco olha o rapaz ao passar por ele. Vai perdido nos seu próprios problemas e também o seu olhar perdeu o brilho.
Este homem vem da fábrica têxtil onde esteve a trabalhar oito horas, de pé, em troca de um salário mínimo e alguns prémios que poderá obter se, durante o mês, fizer alguns turnos extra. Ultimamente tem feito muitos destes turnos extra. Não consegue estar em casa e é preferível ir para a fábrica a ir para o café embebedar-se como fazem muitos outros que conhece, alguns dos quais seus colegas que deixaram de trabalhar quando a fábrica reduziu ao pessoal. Não os pode enfrentar pois alguns sabem do que se passa na sua vida.
Agora vai a casa buscar a mulher, também ela funcionária da mesma fábrica, despedida para redução de custos.
Ao chegar pouco falarão, será melhor assim. Ela terá um parco pequeno almoço pronto para ele e logo depois de ele comer vão voltar a sair. Ele vai levá-la alguns quilómetros e freguesias de distância e deixá-la na estrada. Lá ela esperará pelos condutores e camionistas que lhe darão algum dinheiro em troca de um prazer breve e falso. Uma parte desse irá para aqueles que a 'protegem', a outra ficará para si. De vez em quando ela recorda com ironia o tempo em que olhava as outras mulheres na berma da estrada e se espantava como poderiam fazer aquilo e como poderiam haver homens prontos a pagar para estarem com elas pois sempre lhe pareceram figuras de mulher pouco atraentes. Gordas na sua maioria e com marcas evidentes de maus tratos, dentes partidos e dedos tortos de fracturas mal curadas. Agora ela vê a sua própria imagem ao espelho e já quase não consegue ver-se como era antes de se lhes ter juntado.
O marido volta para trás. Vai furioso e enojado consigo próprio. Como se deixara chegar àquele ponto? Deixando a sua mulher na beira da estrada para ser usada por outros homens? Invariavelmente pára algures pelo caminho e debate-se com a ideia de voltar para trás, pegar nela e fugirem os dois para longe... E depois lembra-se dos filhos. Da menina e do menino que ainda vão conseguindo manter na escola. Talvez um dia eles possam partir, o miúdo e a miúda, para longe. Irá trabalhar mais um turno hoje. Talvez os miúdos não tenham o destino daquele menino por quem passa todos os dias, que cose sapatos e parece um velho com apenas doze anos. Talvez um dia eles possam ir para a cidade grande. E este sonho guia-o por entre os caminhos poeirentos e as lágrimas que cada vez vão sendo menos.

Não longe dali, que nada são quatrocentos quilómetros neste mundo globalizado, na cidade grande, prepara-se a festa de inauguração de um local onde se gastaram doze milhões de contos. Um milhão de contos por cada ano daquele menino que cose sapatos para recuperar um local onde se torturarão animais. Um local a que chamam pequeno. Talvez por revelar a pequenez da mente de quem o frequenta ou de quem gere o dinheiro que permitiu a sua recuperação. A pequenez de quem prefere ver animais torturados a crianças felizes.


Nota: Este é um texto de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Coincidência essa que, apesar dos esforços do autor, é extremamente provável se este texto for analisado à luz do que se passa na região mais pobre da Europa, ou seja, o norte de Portugal.