Friday, December 09, 2005

Hoje faço o primeiro post, exceptuando aquele que brevemente descrevia o que poderia vir a ser o seu conteúdo, neste blog.

Tendo em conta que aqui falarei de muitos assuntos, principalmente aqueles a que dou importância, e que o farei em português, acho que será apropriado falar precisamente sobre a língua portuguesa e a sua mais recente versão.

Aquando da última edição do dicionário oficial da língua portuguesa, falou-se muito na inclusão do vocábulo - que não se trata de uma palavra - ‘bué’.

Esse vocábulo foi usado inclusivamente em brincadeiras na Assembleia da República (onde parece que pouco mais se faz que brincar). Mas não é sobre tal vocábulo que vou falar, até porque creio que se trata de uma moda passageira, localizada principalmente nas regiões urbanas e, entre essas, principalmente nas do sul. Daqui por um par de anos já ninguém o usará e ficará apenas como uma imbecilidade, entre outras, na realização do referido dicionário.

Pretendo antes focar a minha atenção no aportuguesamento de palavras estrangeiras. Um exemplo é dossier.

Dossier é uma palavra francesa que significa pasta de arquivo. E aqui reside o problema na criação da grafia ‘dossiê’. Há uma tradução correcta. Existe um equivalente em português e, sendo assim, para quê aportuguesar?

Esta utilização de uma grafia portuguesa para simular o som de uma palavra estrangeira é, para não recorrer a termos do calão, ridícula. Principalmente quando existe uma tradução correcta para português. É algo que só estava habituado a ver em más traduções e textos de origem brasileira.

Durante muitos anos coleccionei banda desenhada e algumas séries não se conseguiam encontrar em português europeu. Aí encontrei centenas de situações idênticas a esta do ‘dossiê’. Lembro-me, por exemplo, de ler ‘barganha’ e me rir às gargalhadas com tal estupidez do tradutor. Depois reflecti que tal era natural pois no Brasil usa-se ‘negócio’ para ‘coisa’ e não para o que realmente significa. ‘Negócio’ deveria ter sido utilizado, mas a frase original ‘Let’s have a bargain’ - ‘Vamos fazer um negócio’ - soaria estranha para um brasileiro se correctamente traduzida. Algo como ‘Vamos fazer uma coisa’ para os leitores do português europeu. Esta nova mania de grafar os estrangeirismos como se fossem palavras portuguesas deve deixar extremamente frustrados todos aqueles que se esforçaram por impor traduções em português europeu. Tanto na banda desenhada como no software (ou deverei agora escrever 'softuere'?).

Se tal tradução é corrente no Brasil e os leitores aí estão contentes com isso, não me preocupa. Mas a sobrevivência de uma língua não vem da sua adaptação subserviente a outras e a sobrevivência do português é algo que deve preocupar os portugueses, mesmo que não preocupe outros povos cuja língua é, ainda, o português. E eu estou preocupado...

Não porque os brasileiros façam más traduções ou porque usem as palavras com sentidos diferentes do dado pelo português europeu. Se do português europeu nascer uma outra língua, por exemplo o brasileiro, tal será motivo de orgulho e satisfação. Nessa altura o português será, no mais puro sentido, uma língua mãe.

Estou preocupado porque o estado português resolveu que a língua portuguesa deveria ceder às pressões do uso de palavras estrangeiras e, ao invés de incentivar o uso dos termos portugueses, resolveu ditar a sua morte. Quem irá escrever ‘pasta de arquivo’ em vez de ‘dossiê’? Eu irei, ou escreverei dossier, entre comas ou em itálico para salientar o facto de ser um estrangeirismo, que o não deixa de ser por se escrever com assento circunflexo, mas poucos mais se darão ao esforço e 'pasta de arquivo' será um termo morto.

Outros exemplo são ‘icebergue’ ou ‘sutiã’ ou, note-se a ironia, ‘blogue’.

A estupidez é tal neste aportuguesamento que ‘icebergue’ se lê como se diz em inglês (‘iceberg’) e não lendo o ‘ice’ a soar como deveria em português, similar a ‘e se’. Já que vamos ser idiotas, ao mesmo escrevamos ‘aicebergue’!

E ‘soutien’ não tem tradução? Qual é o problema? É o mesmo que agora começarmos a escrever ‘baite’ (byte) ou ‘bite’ (bit) porque não há equivalente em português. Pouco falta depois do absurdo ‘blogue’. Não há, escreve-se mesmo assim. Um estrangeirismo não é um erro.
Também o português tem palavras que nas outras línguas não existem.

Não há muito tempo o presidente da república reclamava, em francês, da força e imposição do inglês sobre as outras línguas e pedinchava, inutilmente como é natural numa figura inútil, que o inglês desse espaço às outras línguas. Mas os que falam e escrevem em inglês não têm medo de usar termos estrangeiros e não lhes dão uma grafia similar à do inglês. Usam-nos como estrangeirismos que são e aceitam que a sua língua pode não estar na origem de todas as palavras ou cobrir toda a riqueza das ideias humanas. Talvez por isso se imponham.

Não acredito um dia ver os ingleses a escrever ‘soudate’ ou algo do género, mas já alguns usaram ‘saudade’.

Só espero não vir eu um dia a ter saudades de poder escrever saudade. Assim mesmo, em Português!

Tuesday, November 15, 2005

Primeiro post

Naturalmente, este primeiro post deve servir para elucidar potenciais leitores acerca do que será o seu conteúdo.
Conforme o título indica, ou talvez não, neste blog vou colocar a minha visão sobre os mais variados assuntos, sendo que irei procurar olhar para esses mesmos assuntos de uma perspectiva diferente, ou não linear.
Não posso prometer qualquer tipo de regularidade, irei colocando opiniões aqui conforme os temas me suscitem suficiente interesse ou tenha disponibilidade.

Assim, espero que os posts futuros vos agradem e que estejam abertos a opiniões diferentes, não raras vezes controversas.

Saudações!